quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A luta pela diversidade sexual é também responsabilidade de uma ciência do comportamento

“It is always an individual who behaves, and he behaves with the same body and according to the same processes as in a nonsocial situation.[...] The individual behavior explains the group phenomenon.” (Skinner, 1953)

             
Este artigo tem como objetivo uma breve reflexão sobre  um tema caro aos direitos humanos universais, e direitos e liberdades individuais dos cidadãos, que é a constante e aparentemente interminável luta pela garantia do livre exercício da sexualidade humana e suas diferentes formas de expressão. O caminho a ser percorrido será o de apresentação do tema, seguido de considerações dos fenômenos pela ótica do Behaviorismo Radical, substrato filosófico para a Análise do Comportamento como ciência.           

Antes de começar, no entanto, é importante que algumas coisas sejam ditas claramente. Não pretendo aqui trazer uma interpretação definitiva sobre os fatos, quanto menos ditar os caminhos a seguir para movimentos sociais e pessoas interessadas. Outro importante fato é que, na condição de homem heterossexual cisgênero, não me encontro inserido na luta diária pela sobrevivência em um mundo pouco ou quase nada tolerante às diferenças (sejam ideológicas, esportivas, religiosas, cor da pele, local de nascimento, sotaques ou exercício da sexualidade). Embora distante do clássico representante do macho heterossexual machista e intolerante, reconheço estar livre de um sem número de consequências aversivas às populações que fogem às normas e convenções sociais. Meu ponto é: ao contrário do que podem pensar alguns, e coerentemente com o que irei expor mais adiante, não me sinto desautorizado a falar sobre aspectos sociais importantes, especialmente quando acho que posso contribuir de alguma forma para a elucidação e combate a fenômenos sociais que causam sofrimento a um número inestimável de pessoas, vidas para além dos dados estatísticos. Dito isso, vamos ao que interessa.

É de conhecimento amplo e quase irrestrito o tamanho da barbárie que sofrem setores das populações do Brasil e do resto do mundo com o chamado machismo institucional. Se você diz ou ouve dizer por aí que mulheres não sabem dirigir e que não servem para trabalho intelectual; se você é uma daquelas pessoas que justifica um estupro com frases do tipo “quem mandou sair na rua a essa hora!”, ou “também, vestida desse jeito!”; se você ridiculariza e hostiliza (física ou “apenas” verbalmente) alguém por conta de sua orientação sexual, para ficar em exemplos cotidianos, então você é um velho conhecido do que convencionou-se chamar de machismo.

Não bastassem tais práticas culturais enraizadas, temos testemunhado a instalação em setores do poder de representantes de seitas religiosas retrógradas, como pastores de igrejas neopentecostais (alô Feliciano), bem como os interesses eleitorais que amarram as pernas de políticos outrora progressistas (para exemplos, veja aqui palavras de presidenciáveis sobre o aborto, e aqui Dilma sobre o kit anti-homofobia).           

No entanto, a despeito do caótico cenário social que presenciamos (para ficar em exemplos brasileiros apenas), o que temos observado com certa frequência é uma discordância entre movimentos sociais acerca da agenda de pautas. O discurso oficial é contra a opressão, mas parece que o que se entende por opressão é diferente para determinados setores, no que fica a impressão de que é possível diferenciar qualitativamente aquilo é “problema meu” e aquilo que é “problema seu”. Alguns exemplos importantes são a mudança do L para a frente da sigla do movimento LGBTT, numa tentativa de dar maior visibilidade às lésbicas em combate a manifestações do machismo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u410294.shtml). Outra opção é entre cisões e discordâncias internas de movimentos feministas (vejam exposições aqui e aqui).

Como não poderia deixar de ser, tais discussões culminam em diferentes frentes de combate e programas de ação prática, seja no campo das políticas públicas, seja nas formas de organização política e social desses setores. Todavia, o que mais me chamou a atenção foi uma crítica com veemência às políticas dos movimentos LGBTT,  além de já antigas sugestões de uma crise de representatividade eminente. O texto pode ser acessado aqui e cada um tirar suas próprias conclusões.

Exposto o cenário amplo, inicio o que entendo por minha pequena parcela de contribuição, e farei através da exposição de dois pontos centrais: 1) a necessidade de operacionalização da chamada opressão; e 2) a necessidade da chamada “educação para a sensibilidade”. Ao final, espero que fique claro no texto a noção de que os problemas sociais, tais como as lutas pela diversidade sexual, são, em última análise, problemas que envolvem fenômenos e processos comportamentais, e portanto, estamos falando de comportamento humano.
             

Sobre 1), me parece que muita confusão é feita com a palavra opressão, seja por meio de significados sociológicos, por meio de usos do cotidiano que atribuem outros significados ao termo, seja pelo seu entendimento parco. Argumenta-se que existem diferentes formas de opressão, que podem ser de pessoas por pessoas simplesmente, de classes sociais ou mesmo de grupos hegemônicos da sociedade. Os dicionários versam sobre reprimir, humilhar, forçar alguém a fazer algo, dominar pela força, etc. Ainda assim, tal termo carece de um tratamento comportamental mais acurado.

São dois aspectos a serem salientados. Primeiramente, não estamos falando de uma entidade social invisível que causa comportamento, estamos falando do próprio comportamento. A base fundamental da opressão como prática social é o comportamento do indivíduo, como o é a base de todo tipo de fenômeno social. Essa afirmação é particularmente importante, pois é o comportamento das pessoas que explica o fenômeno grupal e nada para além disso – já temos com isso problemas suficientes para resolver – , são sempre as pessoas que se comportam, e o fazem agrupadas pelo fato de produzirem, assim, consequências que não conseguiriam produzir isoladamente. Um protesto nas ruas não teria o mesmo resultado com 1, ou com 1mil pessoas, mas ainda assim temos que encarar o fato de que cada um o faz por suas razões (que podem ser comuns para todos, claro), embora o façam entrelaçadamente.

O segundo aspecto do que chamamos de opressão e o qual quero salientar é sua funcionalidade enquanto prática cultural, ou seja, quais são as variáveis que controlam a ocorrência desses comportamentos das pessoas que compõem uma cultura. Afinal, por mais que existam diferentes formas de opressão, bem como diferentes graus – a opressão que sofre um homem gay cisgênero é diferente pela sofrida pela mulher lésbica, ou trans, argumentariam com razão muitos – mas essa diferença é de que natureza? Me parece que é formal, da topografia. Quando falamos de um comportamento, podemos falar em incontáveis possibilidades, a variabilidade é quase infinita. Temos diferentes tipos de birra, de chantagem, de carinho, de pedir algo, de sentir algo, de pensar em algo. No final do dia, todos são diferentes formas de fazer funcionalmente a mesma coisa – birra, chantagem, pedidos, sentimentos, pensamentos e etc.

Na esteira do parágrafo anterior, faz-se necessário um esclarecimento. Funcionalidade do comportamento é uma forma de explicar sua ocorrência, explicar o seu “por que”, ou, grosso modo, sua “causa”. Dessa maneira, quando falamos função do comportamento, falamos da relação de interdependência entre aspectos do organismo que se comporta – respostas que ele emite, e do mundo ao seu entorno, falamos de situações as quais está exposto e, portanto, estamos falando dos fatores responsáveis pela ocorrência de determinadas respostas das pessoas em relação ao mundo.

Em outras palavras, opressão é opressão, em maior ou menor magnitude. Explico. Alguém que subjuga ou explora outrém está estabelecendo uma relação de desigualdade e, como consequência, se favorecendo, tendo acesso a aspectos do ambiente que não teria de outra forma. O sujeito que é oprimido pelo patrão, um clássico exemplo capitalista, é o sujeito que não tem muita escolha senão trabalhar exaustivamente para garantir sua sobrevivência, ao custo de a maior parte daquilo que produz ficar com o empregador. Da mesma forma, numa situação em que a mulher sofre maus tratos ou qualquer tipo de violência física ou simbólica por parte de um homem, as consequências para o opressor são o acesso a qualquer tipo específico de poder que deriva de tal relação. De forma semelhante o negro que se encontra em relação de desvantagem e discriminação social, principalmente por uma diferença de pigmentação da pele, tal situação proporciona ao branco uma série de vantagens sociais e poderes aos quais dificilmente teria acesso se não subjugando o outro. Nesses termos, temos diferentes formas (no sentido de formato do comportamento, de modo de se comportar) de opressão, diferentes maneiras de oprimir, diferentes contextos que desencadeiam comportamentos opressores, mas as relações funcionais descritas anteriormente são basicamente as mesmas, são semelhantes e nos permitem falar em práticas culturais opressoras, em conjuntos de comportamentos de pessoas transmitidos de geração por geração, e entre povos das mesmas gerações, cujas consequências giram em torno do empoderamento do opressor e do desempoderamento e subjugo do oprimido

Tal agrupamento de diferentes formas de opressão em uma classe funcional não significa dizer, evidente, que todas possuem a mesma valoração social. A questão do julgamento de valor e da importância social de cada prática é outro aspecto que foge ao escopo desse texto, mas que de forma alguma é desconsiderado em uma análise funcional como a esboçada. Diferentes consequências e suas magnitudes são fatores importantes para a valorização social maior ou menor de cada exemplo citado.

Avancemos para o ponto 2) a educação para a sensibilidade. Quando nos deparamos com a destruição e desperdício de recursos naturais do planeta, bem como a valorização do ganho e prazer imediatos em detrimento do consequências a longo prazo, estamos diante da insensibilidade àquilo que não nos afeta. Não são muito diferentes funcionalmente o comportamento de uma pessoa que negligencia possíveis danos causados à natureza, de comportamentos de pessoas que negligenciam os problemas humanos vividos por outras pessoas, exceto pela mediação, no segundo caso, de um ambiente social  de outras pessoas no caso do segundo, ou seja, a interação com o ambiente físico não-social é distinta da interação com o ambiente social somente pela mediação da consequência do comportamento por outro ser vivo. Dito de outra forma, aquilo que não te atinge, que não faz parte do seu entorno, dificilmente desperta sua sensibilidade. De uma certa forma, podemos exemplificar isso através da suposta crise de representatividade do movimento LGBTT com relação às causas não masculinas, presentes na crítica citada anteriormente. Parece difícil ao homem gay cisgênero ser sensível às consequências sociais que a condição de diferente da norma acarreta a outros indivíduos, particularmente aqueles que não seus pares.

 Qual seria então a tarefa de práticas educacionais planejadas com o intuito de reduzir diferenças sociais entre as pessoas e promover igualdade social? Parece que a saída é promover sensibilidade. Em outras palavras, é preciso que as pessoas sejam sensíveis às consequências que afetam não só o próprio comportamento (o próprio umbigo), mas sim sejam capazes de considerar o outro, de olhar não somente para seu entorno mas, para contextos mais distantes e sentir-se responsável por aquilo que acontece com outros seres humanos.

Para concluir o já não tão breve percurso, é importante salientar que existe um campo da Psicologia que dispõe de recursos para lidar de forma mais precisa e eficiente com tais problemas. Como destacado no trecho inicial, “é sempre um indivíduo que se comporta, e ele o faz com o mesmo corpo e de acordo com os mesmos processos em situações sociais e não-sociais”. A base da opressão e de qualquer outro fenômeno social, portanto, é o comportamento do indivíduo e, um melhor entendimento desses fenômenos é através do estudo do comportamento dos indivíduos. Tais problemas dizem respeito, fundamentalmente, a uma ciência do comportamento humano.

3 comentários:

Wanderson Barreto disse...

Muito bom! Como analista do comportamento, compartilho da mesma visão! Obrigado por contribuir com sua palavras.

Diego M. Fernandes disse...

Muito obrigado, Wanderson. Espero ter contribuído de alguma forma.

Augusto Anselmo disse...

Gostei muito do seu texto. Não vejo muitos artigos/textos com um olhar behaviorista sobre a diversidade sexual. Excelente contribuição, Diego.

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