terça-feira, 25 de março de 2014

A aventura (comportamental) de um míope – Italo Calvino

Li recentemente um livro de contos chamado “Amores Difíceis”, do Ítalo Calvino, e a astúcia e precisão comuns de suas obras me chamaram a atenção. Analistas do comportamento são entusiastas de boas descrições – principalmente de interações entre pessoas e o mundo ao seu redor, seja ele composto de objetos apenas, ou de outras pessoas e animais –, no que Calvino é mestre, é capaz de descrever como suas personagens se sentem e se comportam de maneira impecável.

O livro não perde tempo em nos trazer uma descrição quase cientifica logo no primeiro conto: uma situação velha conhecida de muita gente, pra não dizer de todo mundo, o conflito à flor da pele para resolver o que fazer diante de uma situação de flerte, avançar ou não tendo como estímulo pequenos sinais que podem existir ou não, em que qualquer reação do outro pode ser um sinal de aceitação ou recusa. Calvino leva a situação ao limite e é capaz de adentrar o mundo sob a pele do jovem soldado, extasiado pelo contato de sua perna com o da instigante viúva ao seu lado no trem.

Mas não é sem motivos que o autor gasta munição pesada logo no primeiro contato com o leitor, tinha mais cartas na manga para o decorrer da obra, o que nos traz diretamente à história que inspira esta postagem. A uma determinada altura, Calvino nos conta a história de Amilcare Carruga, que “ainda era jovem, não desprovido de recursos, sem ambições materiais ou espirituais exageradas: nada o impedia, portanto, de gozar a vida. E, no entanto reparou que de uns tempos para cá essa vida para ele andava, imperceptivelmente, perdendo o gosto” (p. 88).

O livro de Calvino nos brinda com uma descrição precisa de processos comportamentais através de prosa reforçadora e elegante, com requintes que dificilmente um texto técnico poderia contar. Vamos dos mais simples aos mais complexos, resgatando passagens do conto, e é pela história de Amilcare que pretendo demonstrar o analista do comportamento que provavelmente Calvino nem imaginava que fosse.

Extinção. Como demonstra a passagem já citada, parecia que a vida de Amilcare perdia “o gosto”, as coisas já não tinham a mesma graça de antes. “Antigamente, as cidades novas o exaltavam – viajava com frequência, pois trabalhava no comércio –, agora, só percebia nelas o aborrecimento, a confusão, a desorientação” (p. 88). É possível distinguir alguns processos comportamentais, mas no momento é conveniente falar de extinção. O que vemos é que os antigos reforçadores não fazem mais efeito para Amilcare, ele não tende a fazer novamente as coisas que fazia antes e nem se sente bem fazendo-as. Mais um exemplo: “De toda a paisagem a noite só deixava de pé grandes faixas de sombra. Os óculos, pô-los ou tirá-los ali dava exatamente no mesmo. Amilcare Carruga compreendia que talvez aquela exaltação dos óculos novos tivesse sido a última de sua vida, e agora havia acabado” (p. 96).

A extinção pode ser entendida como algum tipo de quebra na contingência reforçadora, eventos que eram contingentes à apresentação de uma ou mais respostas específicas não ocorrem mais, as consequências desaparecem, ou mudam completamente, de modo que a antiga relação fortalecida deixa de existir e o organismo para de se comportar daquela forma, a médio e longo prazo principalmente. Outros efeitos presentes na interação são possíveis reações fisiológicas características, que costumamos nomear de tristeza, apatia, desânimo, etc. Algumas respostas de ansiedade também podem aparecer, uma vez que alguma coisa precisa acontecer no lugar daquela interação anterior e nem sempre o organismo dispõe de repertório para fazer algo diferente naquele contexto.

Reforçamento. Diante de tudo que ocorria, Amilcare “por fim entendeu. Ele estava míope. O oculista lhe receitou um par de óculos. A partir daquele momento sua vida mudou, tornou-se cem vezes mais rica em interesse do que antes” (p. 88). Vemos aqui que Amilcare enfim conseguiu um meio de obter mais reforçadores, ou seja, entrar em contato com consequências de seu comportamento que fossem fortalecedoras e prazerosas. A possibilidade de enxergar bem novamente colocou-o em contato com novos estímulos e o tornou sensível a novas interações com seu entorno. “Olhar se tornava um divertimento, um espetáculo; não o olhar uma coisa ou outra: olhar” (p. 89). Esta passagem é um bom exemplo dos efeitos do reforço. A resposta de olhar é fortalecida e, para além disso, torna-se prazerosa, “cada vez que punha os óculos no nariz era uma emoção” (p. 89). Após contingências de extinção em que nada que se via era reforçador, a possibilidade de olhar o mundo de forma diferente e ver coisas novas parece altamente tentadora e prazerosa.

Discriminação. Grandes mudanças (mesmo que em pequenos aspectos) podem levar a aprendizagens novas e Amilcare certamente se deu conta disso, “via tal quantidade de coisas que era como se não visse mais nada. Teve que se acostumar pouco a pouco, aprender desde o começo o que era inútil olhar e o que era necessário” (p. 89). É impossível responder a todos os estímulos do mundo ao nosso redor. Mais difícil ainda é agir efetivamente sobre o ambiente, sem aprender a discriminar em que momentos nosso comportamento será reforçado e em quais será punido. Amilcare “punha os óculos para ler o número de um bonde que chegava, e então tudo mudava; as coisas mais corriqueiras, até um sarrafo de andaime, desenhavam-se com tantos detalhes mínimos, com linhas tão nítidas (...)” (p. 89). Nosso comportamento fica sob controle de aspectos específicos do ambiente, como quando distinguimos entre os momentos de acelerar diante do sinal verde, ou frear diante do vermelho. Tais aspectos do ambiente adquirem controle sobre nosso comportamento, de modo que sinalizam a probabilidade de obtenção de reforço. Nesse exemplo, é a cor que predominantemente controla tal resposta, mas existem também outras relações de controle no contexto, como possíveis condições do organismo – fome, necessidade de ir ao banheiro – ou mesmo outros eventos como estar muito atrasado para um compromisso. A interação com o ambiente é plena de estímulos e tais exemplos são recortes analíticos convenientes. O comportamento é processo, é fluido e evanescente, ocorre o tempo todo, é modificado pelo ambiente e o modifica.

Generalização. “E então as mulheres com quem cruzava pela rua e que uma vez se tinham reduzido para ele a impalpáveis sombras fora de foco, agora o poder vê-las com o exato jogo de côncavos e convexos que o corpo delas faz se mexendo dentro da roupa, e avaliar o frescor da pele, e o calor contido no olhar, não mais lhe parecia apenas vê-las, mas já até possuí-las” (p. 89). Mulherengo que era, Amilcare “estava às vezes andando sem óculos (...) e pronto: mais adiante na calçada despontava uma roupa de cor viva” (p. 89). Em decorrência disso, “com um gesto já automático Amilcare imediatamente retirava os óculos da bolsa e os metia no nariz” (p. 89). Os efeitos do reforçamento enquanto processo – fortalecimento e sensação de prazer – podem se estender para outras situações semelhantes às quais o comportamento foi reforçado. Tal processo explica o por que o jovem respondia da mesma forma, colocando o óculos, a cada nova cor viva andando pela rua que se assemelhasse a uma mulher, comportamento que foi reforçado anteriormente.

Punição. No entanto, nem tudo são flores e Amilcare logo descobriu isso. Embora os processos comportamentais tenham fortalecido as respostas de colocar os óculos e olhar para mulheres na rua, desfrutando da vista recém-reconquistada, o ambiente pode ser mutável e instável, e há até mesmo quem diga que pode ser cruel. Muitas vezes uma resposta reforçada em um contexto é severamente punida em outro, como experimentamos ao conversar numa mesma festa com amigos da mesma faixa etária, com parentes mais velhos tais como avós e tias, e com crianças pequenas. Provavelmente não podemos falar as mesmas coisas para todos eles, um palavrão pode ser bem recebido pelos amigos e até mesmo pelas crianças, dependendo da família, mas nem tanto pelas tias e avós (pelo menos é o caso da minha avó), e uma piada pode ser engraçada para as crianças mas para nenhum dos outros. Sob controle do ambiente imediato e da história de reforçamento prévia, Amilcare “imediatamente retirava os óculos do bolso e os metia no nariz. Essa indiscriminada cupidez de sensações frequentemente era punida: às vezes era uma velha” (p. 89). Como efeito da punição, “Amilcare Carruga se tornou mais cauteloso” (p. 89), ou seja, reduziu a taxa de respostas de colocar os óculos a cada vez que algo lhe chamasse a atenção. O contexto que outrora reforçou as respostas de olhar as mulheres na rua com fervor, deu lugar a contingências punitivas que reduziram esse comportamento.

Identidade. Os mesmos processos já suavemente descritos por Calvino e por mim apontados (entre alguns outros não abordados nesse texto) são responsáveis pela percepção de si mesmo no mundo e formação do que alguns chamam de identidade, ou self. Parece que nosso querido Amilcare, em meio a tantas mudanças, não passou isento de uma crise de identidade, por assim dizer. “Essas novas preocupações quanto à realidade do mundo externo não se separavam das preocupações quanto ao que era ele mesmo, ainda ao uso dos óculos. Amilcare Carruga não dava muita importância a si mesmo, porém, como às vezes acontece com as pessoas mais modestas, era extremamente afeiçoado à sua maneira de ser. Ora, a passagem da categoria dos homens sem óculos à dos homens de óculos pode não parecer nada, mas é um salto muito grande. Pense que, quando alguém que não o conhece tenta definir você, a primeira coisa que diz é: “um de óculos”; assim aquele acessório particular, que quinze dias atrás lhe era particularmente estranho, torna-se seu primeiro atributo, identifica-se com sua própria essência” (p. 90).

O que vemos no excerto é uma descrição muito mais divertida dos processos anteriormente citados no que diz respeito à formação da autoimagem, da afirmação da identidade pessoal. Amilcare se sentia bem (era reforçado pelo modo como interagia com o ambiente, sua imagem no espelho lhe parecia bonita, agia efetivamente sobre o mundo e possivelmente resolvia seus problemas) consigo mesmo, mas como todo ser inserido em uma comunidade verbal, em culturas, seu modo de ver o mundo tem muito a ver com sua história de interações, e tal história coloca seus comportamentos sob controle de certos aspectos do ambiente ao invés de outros. Sua imagem de si só pode ser definida em interação com a forma como os outros se comportam em relação a você, justamente pela natureza verbal do comportamento social. Quando Amilcare reclama de desconhecidos se referirem a ele como 'um de óculos' (p. 90), ele está se queixando dos aspectos de sua aparência que controlam o comportamento dos outros ao identificá-lo. Parece que os óculos – através de processos de condicionamento operante e controle de estímulos – se tornam “seu primeiro atributo, identifica-se com sua própria essência” (p. 90).



Espero ter trazido algum esclarecimento sobre os princípios comportamentais descritos pela ciência da análise do comportamento, bem como ter cumprido o objetivo levantado no início, nessa que é uma tentativa divertida de divulgação científica através da literatura. Aos que estão curiosos com o final da história, no primeiro tópico eu trouxe o último parágrafo do texto e sugiro que tomem um tempo para ler o desavisado analista do comportamento Ítalo Calvino, vale a pena, e descubram o que acontece com Amilcare e outras fascinantes personagens de seus contos.


Referência
Ítalo Calvino. Os Amores Difíceis. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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