quarta-feira, 18 de junho de 2014

San Antonio Spurs: o que acontece quando se trabalha para o bem do grupo?

Tempo pedido na quadra, e o que se ouve do treinador Gregg Popovich são pedidos para que seus jogadores toquem mais a bola. "Temos que fazer isso juntos! Parece que melhoramos a movimentação da bola no ataque, e é isso que precisa ser feito!". O que o treinador quer é que seu time continue a compartilhar a bola e a se movimentar até que ela chegue para o jogador nas melhores condições possíveis de converter o arremesso, independentemente do placar, do tempo restante no relógio e de quem está na quadra.

Antes de continuar, pausa para um pequeno preâmbulo. Existem esportes considerados individuais, como o tênis, em que embora toda a preparação necessária para o atleta depende de uma equipe, o jogo é jogado por uma só pessoa; e existem outros que são jogados por mais de uma pessoa, como o futebol, voleibol ou o basquete, assunto destas linhas. Ainda que todos possuam sua dinâmica, regras e carisma próprios, um certo fenômeno costuma lhes ser comum, a valorização da figura do grande jogador.

São muitos os grandes nomes dos esportes coletivos, de tal modo que quase todo entusiasta de esportes seria capaz de citar pelo menos um: Michael Jordan, Magic Johnson, Maradona, Pelé, Ronaldinho, Giba, entre outros. Quase todos os esportes possuem premiações para o jogador mais valioso da temporada e feitos e conquistas individuais as vezes são mais valorizados do que as conquistas coletivas. Curiosamente, e talvez para nos lembrar do poder do esforço coletivo, não nos faltam exemplos dos mesmos grandes jogadores, outrora ressaltados, fracassando em jornadas nas quais não possuem o suporte necessário. No basquete, é o chamado time de um homem só. LeBron James e Cristiano Ronaldo são bons exemplos recentes de atletas premiados que não conseguiram triunfar e tiveram problemas com suas limitadas equipes.

Ainda assim, o cidadão comum que conhece Pelé dificilmente seria capaz de escalar o Santos bicampeão mundial, ou o Chicago Bulls duas vezes tricampeão da NBA com Michael Jordan. Não é coincidência que os valores individuais se sobressaiam sobre as equipes por eles compostos, mas suas razões políticas, sociais e econômicas são assunto para outro momento. 

É comum ouvirmos lugares comuns de que o homem é ganancioso e ambicioso por natureza, bem como "lugares não tão comuns" que destacam o "gene egoísta". É bem verdade que muito do espírito do nosso tempo é a valorização do invidívuo e, conforme vinha comentando, não é muito diferente no esporte. Meu posicionamento é o de que é possível tornar o comportamento humano especialmente voltado para o bem coletivo, e é difícil resistir ao argumento que tem sido a jornada já constante e bem sucedida do San Antonio Spurs. Pois vamos a ela, então.

Peço que assistam a este vídeo, chamado "The Beautiful Game"Reparem na movimentação de bola, proveitosamente destacada pela edição, e lembre-se das palavras do treinador no começo deste texto. Este é o San Antonio Spurs, equipe do Estado do Texas e da liga norte americana de basquete. Este ano foi marcado por seu mais recente título dos cinco conquistados pela equipe em quinze anos. Seu comando técnico atual assumiu o time na temporada 1997-98 e desde então já alcançou números dignos de uma dinastia, com um total de 6 aparições em finais e cinco títulos vencidos e 17 aparições consecutivas nos playoffs. Seus principais nomes, o argentino Manu Ginobili, o francês Tony Parker e o canarino Tim Duncan jogam juntos há mais de dez anos. Cada um deles, principalmente Duncan, já teve seus momentos de glória individual e premiações. Tal sucesso lhes proporcionou ofertas de contratos muito generosos em outras equipes, mas escolheram, ano após ano, permanecer juntos na mesma engrenagem, constantemente remodelada em torno do trio e do treinador, Popovich. A verdade é que foram  reduzindo seus salários para dar mais flexibilidade financeira à franquia. "Aceitamos menos dinheiro para ficar aqui e vencer campeonatos", diz Parker.

Os sacrifícios não foram apenas financeiros. O processo de gerência e treinamento de uma equipe de atletas em alto nível tem custado aos jogadores a redução gradual de seu tempo de quadra. Neste ano, San Antonio é a primeira equipe desde 1976, quando a ABA e a NBA tornaram-se uma liga unificada, a não ter nenhum jogador atuando por mais de 30 minutos de média por partida durante a temporada. O resultado, obviamente, é uma queda no desempenho numérico de cada um, já acentuado com o passar do Senhor Cronos. "Eu sempre penso sobre nossos caras as vezes, e suas estatísticas, eles realmente se prejudicam as vezes, jogando para mim", confessa Popovich. No entanto, o objetivo é atravessar o país continental e os 82 jogos da temporada regular, espalhados entre outubro e maio, sem contusões e com as pernas frescas para o momento mais aguardado, a disputa dos playoffs.

É somente dessa forma que Duncan (38), Ginobili (36), entre outros conseguem chegar com o tanque cheio à hora que os sinos tocam. Todavia, limitar o tempo de atuação de seus principais jogadores implica em encontrar substitutos que mantenham a equipe atuando em alto nível. Como é possível garantir uma performance satisfatória e constante com tantos jogadores diferentes, mais e menos talentosos, respectivamente? A resposta é o ponto central deste texto: o esquema de jogo, cujos principais valores são o coletivismo e o bem do grupo.

Agora que você já viu o vídeo e já chegou até aqui, reparou que o treinador gosta de sua equipe compartilhando a bola. San Antonio é a equipe com a maior média de passes na liga, são mais de 300 por partida, também com maior média de assistências, 25 por partida, e o sexto melhor ataque com médias de 105 pontos por partida. Com o tempo de quadra de seus titulares limitado, a produtividade dos suplentes é alta e o banco que mais pontua na liga ajuda a manter o ataque efetivo. Talvez tão importante quanto o ataque é o esforço defensivo, estando a equipe entre as três melhores defesas da temporada.*

Em terra fértil para as práticas culturais individualistas e ego centristas - o campeão da NBA é chamado pelos estadunidenses de "campeão do mundo" - não surpreende o fato de os Spurs serem o time mais internacional da liga, com um número recorde de 10 jogadores estrangeiros, bem como a maior mistura étnica. Jogadores de diferentes backgrounds culturais tendem a trazer variabilidade de repertório comportamental, e é fantástico notar a habilidade da organização em estabelecer contingências de cooperação e solidariedade entre seus componentes. O caldo cultural resultante dessa mistura possui como principais valores o bem coletivo, a vitória da equipe, o triunfo do grupo sobre o adversário, e não parece exagerado dizer, sobre o Indivíduo.

Os resultados podem ser vistos em números, mas para além deles parece existir uma valorização do comportamento em prol do grupo. Ao comentar uma troca recente envolvendo uma peça importante do time, o gerente geral R. C. Buford afirma que "havia preocupação da parte dos jogadores, não apenas por estarem perdendo um grande amigo, mas também um grande companheiro de time. A confiança de que o grupo nos permitiu fazer a transação - porque não faríamos sem envolvê-los - foi vital para eles dizerem 'OK, não gostamos disso, mas veremos o que acontecerá'". O relacionamento interpessoal entre os membros da comissão técnica e os jogadores dá sinais de que o coletivismo enquanto uma prática cultural compensa. 

Olhemos com carinho para o que estão construindo há quase duas décadas por lá, de modo a entender como podemos melhorar nossas relações de cooperação e promover valores (um outro nome para consequências reforçadoras) em prol do bem coletivo, do bem do grupo. Temos muito a aprender com Pop e seus comandados. Tudo indica que é uma questão de consequências.


*as estatísticas apresentadas são números da equipe na temporada de 2013-2014, encerrada com o título do San Antonio Spurs.

2 comentários:

Cleber Gio - Has Tela Vista disse...

Ótimo texto Diego,
Gostei demais da introdução sobre o valor individual em esportes coletivos.
Tenho uma sugestão de pauta, Boxe x M.M.A , as diferenças de filosofia, queda de popularidade e etc

Diego M. Fernandes disse...

valeu Cléber, agradecido pela visita e comentário. Basquete é um pouco mais dentro da minha alçada, por isso resolvi escrever sobre isso, mas fica a sugestão para um momento futuro.

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