sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Contra as consequências das dicotomias: por uma epistemologia das consequências

Tim Ingold, interessante antropólogo britânico, vem se empenhando em desconstruir dicotomias e ampliar o espectro de análise do que chama de uma ciência da humanidade, uma ciência antropológica.

Algumas dessas dicotomias datam de muitos séculos atrás, desde algumas tradições egípcias ao mito da caverna platônico e os gregos, e também os que se sustentam em proposições teológicas, como a separação entre um mundo espiritual transcendente e um mundo físico imanente. Outras, de quando começamos a investigar sistematicamente fenômenos da natureza, ou seja, de dois ou três séculos atrás, como as oposições entre estado natural/natureza x cultura, e consequentemente, humano x animal, mente x corpo, e mundo interno/privado/subjetivo x externo/público/objetivo. Muitos dilemas e conflitos na filosofia e na ciência são sustentados por essas dicotomias, sendo a diferenciação entre "ciências humanas" x "ciências naturais" o maior representante. Com Ingold (1995): 

"Essa concepção da vida animal e da "animalidade humana" está extraordinariamente difundida no pensamento ocidental e ainda hoje dá o tom de boa parte do debate científico nos estudos sobre o mundo animal e o comportamento humano. Um traço marcante da tradição ocidental é a tendência a pensar em dicotomias paralelas, de modo que a oposição entre animalidade e humanidade é posta ao lado das que se estabelecem entre natureza e cultura, corpo e espírito, emoção e razão, instinto e arte, e assim por diante. Esse mesmo paralelismo é encontrado na divisão acadêmica do trabalho entre as ciências naturais - que se ocupam da composição e das estruturas do mundo material (inclusive organismos vivos) - e as "humanidades", que incluem o estudo da linguagem, da História e da civilização. Além disso, está subjacente às permanentes discussões entre cientistas integrantes de ambos os lados dessa fronteira acadêmica acerca do significado de 'natureza humana' ".

Nas ciências humanas, embora longe de serem um campo homogêneo, muitas vezes vemos o apelo ao que gostam de chamar de metodologia de pesquisa qualitativa, e algumas delas se denominam ciências hermenêuticas, ciências interpretativas. Clifford Geertz tratou da antropologia como uma ciência semiótica, "o conceito de cultura que eu defendo (...) é essencialmente semiótico", pensou a cultura como uma teia de significados; psicanalistas por décadas defendem a existência de um mundo ora imaterial, psíquico, o "não-lugar", ora centrado na linguagem e eminentemente simbólico; Lev Vigotski postulou a consciência como um reflexo psíquico da realidade, no sentido de que os fenômenos subjetivos são dialeticamente determinados pela existência objetiva. Tais perspectivas são tentativas de solucionar o problema das dicotomias objetivo x subjetivo, mente x corpo, algumas com mais alcance e prestígio social, outras com menos.

Do outro lado da dicotomia encontramos algumas ciências chamadas naturais, com ênfase no experimentalismo e na busca por dados confiáveis que sustentem suas hipóteses (quando a estratégia é a do teste de hipóteses, mas há outras possibilidades). Alguns representantes dessas perspectivas são psicolinguistas cognitivistas, como Noam Chomsky, cuja ênfase na estrutura da língua e em uma explicação naturalista e inatista para o que chamou de "faculdades mentais" é a única estratégia viável; biólogos militantes ateístas como Richard Dawkins e sua insistência em um mundo imanente e de preferência centrado no gene como unidade explicativa de toda a vida; e há os que clamam que O Método Científico é aquele cuja possibilidade de falseabilidade é garantida, a replicabilidade é assegurada e qualquer coisa que fuja desse padrão de pesquisa é "pseudociência", é mera filosofia ou perda de tempo. A valorização social de profissões como engenharia e medicina em detrimento de psicologia, pedagogia e antropologia é um bom exemplo disso.

Nessa briga constante de foices no escuro, quem vence são as dicotomias. Não se trata aqui de fazer um apelo à uma síntese relativista, tampouco à vista grossa de embates políticos que são travados na vida cotidiana, e que inclusive se refletem nas políticas públicas e privadas de financiamento de um ou de outro tipo de ciência. Trata-se, na verdade, de perguntar o quanto as diferenças entre essas e outras perspectivas científicas são realmente sustentáveis e sobreviveriam ao aniquilamento de algumas dessas dicotomias. 

Ingold (1995) nos mostra que a busca por aquilo que é essencialmente humano, ou o "salto qualitativo" da espécie humana, é resultado de perspectivas necessariamente etnocêntricas e/ou antropocêntricas. Eduardo Viveiros de Castro fornece exemplos de cosmo-visões indígenas, perspectivistas, que nos colocam em igualdade com outros animais, ou melhor, que não nos distingue de forma alguma, como o indígena que é também o sabiá e o peixe do lago que compartilham. A mera noção de cultura apartada de natureza, ou de alguma forma distinta daquilo que seria seu "estado natural", é inconcebível para algumas formas de organização da espécie.

Na mesma linha, visões de mundo realistas, ou seja, que postulam a existência de uma realidade independente do observador, objetivistas, alimentam a dicotomia ciências naturais x ciências humanas, sendo uma mais próxima do "real" do que outra, uma mais capaz de apreender a "realidade" do que outra, para não falarmos da falácia da neutralidade do pesquisador. O marxista ortodoxo afirma que uma realidade objetiva existe independente do observador, ela determina a consciência; já o marxista bakhtiniano descarta tal posição, que entende por positivismo, afirmando que uma realidade que não é diálogo, que não é interação, é uma forma ingênua de idealismo.

Longe de oferecer uma resposta definitiva, porque comportamento não é dado acabado, é processo, tampouco de encontrar uma verdade absoluta, porque a verdade é inevitavelmente contingente, existe uma forma de olhar para o mundo que procura regularidades, tal e qual as "ciências naturais", mas que reconhece a importância da subjetividade, tal e qual as "humanidades". Quando assumimos que não há uma realidade pronta que apreendemos - derrubamos a dicotomia objetividade x subjetividade; que não há um estado de se comportar natural ou cultural diferente em essência - derrubamos a dicotomia natureza x cultura; que ninguém está preocupado apenas com números e quantidades, mas sim com as mudanças que tais métodos nos ajudam a instrumentalizar - derrubamos a dicotomia qualitativo x quantitativo; e que o ser humano é apenas mais uma forma de existir, diversamente, em um grande processo contínuo e virtualmente infinito de transformação - derrubamos a dicotomia humano x animal; nos preocupamos em encontrar algumas regularidades, dispondo dos métodos que forem mais adequados aos nossos objetivos, para descrever relações entre fenômenos, operar sobre o mundo e promover mudanças efetivas.

O resultado mais significativo que encontramos até hoje em tal empreitada é a sensibilidade dos seres vivos às consequências de sua interação com o mundo ao seu entorno. A descoberta de que o comportamento (de seres vivos de modo geral, da planária às plantas do seu jardim, até o idoso que não perde um episódio de sua novela favorita) é modelado e mantido por suas consequências é de um valor heurístico e transformador ainda subestimado. Para além de fins documentais, o que importa se pombos não jogam ping-pong ou ratos não jogam basquete em seu "habitat natural", quando percebemos que somos capazes de fazê-los aprender mudando seu ambiente? Se somos capazes de ensinar repertórios tão complexos e "tipicamente humanos" a eles, qual o limite para o que podemos alcançar com nossa própria espécie e sua incrível dotação genética? (Skinner, 1981; Schneider, 2012).


É evidente que há diferentes níveis de análise e diferentes aspectos de um fenômeno, sendo cada disciplina especializada em um ou mais deles, mas perguntas como as que nos levaram às dicotomias tradicionais parecem perder sua relevância diante desse cenário. Há a esperança, inclusive, de que um mundo menos dicotômico nos ajude a ser sensíveis aos danos que causamos ao meio ambiente e a outros seres vivos não humanos como danos que causamos a nós mesmos. Mas essa questão é, como qualquer outra que envolve comportamento, uma questão de consequências.


Referências

Mikhail Bakhtin. Observações sobre a epistemologia das ciências humanas, 1974.
Eduardo Viveiros de Castro. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio, 1996.
Clifford Geertz. A interpretação das culturas, 1973.
Tim Ingold. Humanidade e animalidade, 1995.
Lia de Rocha Lordelo; Robinson Moreira Tenório. A consciência na obra de L. S. Vigotski: análise do conceito e implicações para a psicologia e a educação, 2010.
Susan M. Schneider. The science of consequences, How they affect genes, change the brain ad impact our world, 2012.
Burrhus Frederic Skinner. Selection by consequences, 1981.

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