quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O que podemos aprender sobre educação com Johan Cruyff?



Johan Cruyff é um ex jogador holandês de futebol, um dos maiores de todos os tempos, sabia usar os dois pés, jogava em várias posições do campo e se transformou em um fantástico treinador de futebol, sendo um dos mentores do hoje premiado Josep Guardiola, treinador do clube alemão Bayern de Munique e ex treinador do Barcelona que assombrou o mundo no começo dessa década.

Há uma lista de 20 citações do ex jogador, ex treinador e ex dirigente disponível na internet e, entre elas, uma que me chamou a atenção particularmente:


"18. Every professional golfer has a seperate coach for his drives, for approaches, for putting. In football we have one coach for 15 players. This is absurd."

 O que o holandês chamou de absurdo é muito simples, e ao mesmo tempo muito importante. Se um jogador profissional de golfe possui um treinador diferente para cada tipo de jogada que terá que aprender e desempenhar em alto nível, como é possível que no futebol apenas um treinador seja responsável por pelo menos 15 jogadores? Cruyff foi modesto, tanto em termos numéricos quanto em termos de seu desempenho enquanto treinador. Um elenco completo de um clube profissional de alto nível conta com pelo menos 25 jogadores, sem falar nos elencos das categorias inferiores, cada uma com pelo menos um treinador responsável. Seu trabalho como treinador produziu um dos maiores times de todos os tempos, o Barcelona do começo dos anos 1990, de Romário, Stoichkov, Guardiola e muitos outros.

Não é totalmente verdade que exista apenas um treinador em uma comissão técnica, mas sim um grupo de profissionais responsáveis por setores da preparação física, técnica e psicológica, hoje em dia mais reconhecida enquanto elemento importante da saúde do atleta. Há o treinador principal, o que toma as decisões principais, seus auxiliares técnicos, e há os preparadores físicos, os preparadores de goleiros (prática praticamente inventada no Brasil, não existia mundo afora), os massagistas, os fisioterapeutas, os olheiros (que observam times adversários e jogadores para futuras contratações), entre outros. No Brasil, todavia, não é muito comum que um treinador divida a preparação da equipe e o treinamento dos setores do time com outros, como fazia Alex Ferguson no Manchester United em 26 anos de comando do time inglês. E Cruyff nunca trabalhou no Brasil, o que significa que sua experiência como treinador, dirigente e jogador durante pelo menos 4 décadas seja significativa em sua crítica. 

O que difere um jogador de golfe que precisa de treinadores para cada movimento específico de seu jogo de jogadores de futebol, que muitas vezes treinam fundamentos em sessões de grupo, com treinos específicos de finalização, de desarme, de passe, de cobranças de escanteios e faltas, com um ou dois treinadores dando instruções e feedback? Afora as peculiaridades dos esportes em questão, nada. Ambos são pessoas, ambos são atletas, ambos dependem de suas performances, e ambos podem aprender a melhorar. Porque é aceitável que no futebol um treinador comande vários setores e treine fundamentos e movimentações táticas de um grupo de 25, mas no golfe, e mesmo no tênis, a situação seja bem diferente? No basquete norte americano há vários treinadores, mas um elenco é composto de no máximo 12 jogadores, um grande avanço na relação educadores e aprendizes.

Pensemos agora em uma situação mais cotidiana e familiar a todos nós, a sala de aula. A pergunta é a mesma, porque é aceitável que um professor seja responsável pela aprendizagem complexa de muitas pessoas ao mesmo tempo? Em uma rápida observação de sala de aula percebemos que o professor não tem condições de consequenciar cada comportamento adequado de cada um dos alunos, tampouco de alguns deles. Alguns argumentariam em favor de uma aprendizagem voltada para o grupo, a favor de uma valorização do papel e do salário desse solitário e abandonado professor, mas nenhuma dessas questões, a meu ver importantes, dizem respeito à pergunta inicial. Assim como chutar uma bola, dar um passe, fazer uma defesa ou dar uma tacada, aprender a ler e escrever, fazer operações matemáticas e compreender história, geografia e ecossistemas são comportamentos, complexos e distintos entre si em termos do que faz a pessoa que os executa, mas não diferentes em natureza ou qualidade. 

As soluções para esse aparente problema não são muito consensuais nas diferentes propostas da Educação, mas a resposta que me parece mais adequada é: concordo com Cruyff, é um absurdo. Há quem faça um paralelo com o treinador de cachorros, que não tem como ensinar sozinho 15 cães ao mesmo tempo a dar a pata, tarefa aparentemente simples; segue-se que seria incompreensível a fé de que um professor ensinaria comportamentos complexos como leitura e compreensão a mais de 1 aprendiz ao mesmo tempo, quiçá 30 ou 40. Alguns diriam que é uma comparação sem sentido, porque dar a pata e ler e escrever são tarefas muito distintas e qualitativamente diferentes, mas aí então eu pergunto: se ler e escrever é tão mais complexo (e em certo sentido é mesmo), porque se aceita que é impossível ensinar 15 cachorros a dar a pata ao mesmo tempo e é possível ensinar 30 jovens a ler e a compreender ao mesmo tempo?

A responsabilidade de organizar as condições (ensino) para o desenvolvimento (aprendizagem) do aprendiz é do professor/treinador; a responsabilidade de organizar seu time e aperfeiçoar os fundamentos e a execução das jogadas por parte de seus jogadores é do treinador, e delegar a eles tanta responsabilidade parece uma insanidade tão grande quanto a baixa valorização financeira dos professores no nosso país, porque é destiná-los ao invariável fracasso, e selecionar os aprendizes que aprendem sem serem de fato ensinados.

Não é sem razão que o treinador quase sempre receba a culpa do fracasso do time e seja substituído, e das reuniões de pais e professores serem recheadas de reclamações contra os professores. 

Nenhuma dessas situações é justa, a começar pelo papel que esses profissionais são designados e exercer, e pelo fracasso que são condenados a enfrentar. O preço imediato é sua saúde como um todo, seja a do treinador seja a do professor. A conta a longo prazo para o esporte é menor, o time ganha ou perde, troca-se tudo, pagam-se as dívidas, mas para a sociedade é a má formação educacional e pessoal de gerações a fio.

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