sábado, 18 de julho de 2015

Quem sabe por dentro é mais legal?





“Diz-se que o cérebro é o lugar em que o pensamento ocorre; é o instrumento do pensamento e pode ser aguçado ou obtuso; e é o agente que processa os dados recebidos e os armazena sob forma da antiga noção de homúnculo - uma pessoa de dentro que se comporta precisamente das maneiras necessárias para explicar o comportamento da pessoa exterior em cujo interior vive.”

 



Essa passagem foi escrita por um psicólogo na década de setenta, mas poderia ser sobre o mais recente filme da Pixar, Divertida Mente.
 
O filme conta a história da jovem Riley e, mais precisamente, das emoções que habitam sua mente a começar pelo momento exato de seu nascimento, que, de acordo com um crítico de cinema britânico é também "nada menos do que o nascimento da consciência humana". À medida que Riley vai crescendo e suas experiências variando, além de Alegria, novas figurinhas surgem em sua mente, habitando um local chamado Centro de Comando, e completam o time principal Nojinho, Tristeza, Raiva e Medo. As emoções, portanto, desempenham o papel de dirigentes do navio, seu papel é guiar Riley nas suas decisões sobre a vida, ou seja, o  conceito central do filme, também de acordo com a crítica especializada, "é inspirador, nós somos todos controlados por vozes em nossa cabeça".

O mundo interno, ou mental, é retratado em sua complexidade como colorida alegoria aos processos de armazenamento de memórias, processamento de informações externas pelas emoções e, em última instância, a formação das personalidades durante o desenvolvimento humano. As memórias base armazenadas sustentem os principais traços de sua personalidade, retratadas como "ilhas da personalidade" que, no caso de Riley, são as ilhas da bobeira, da família, do hóquei, da honestidade e da amizade. 

 
As ilhas vistas da central de comando.


Com uma infância recheada de muita alegria e laços familiares e de amizade estreitos, Riley entra na pré-adolescência com a notícia difícil de que terá que se mudar de Minnesota, sua cidade natal, para São Francisco, do outro lado do país. Hóquei, seu esporte favorito, a escola e seus amigos, e a casa em que cresceu e colecionou suas "memórias base" ficam para trás diante de um mundo completamente desconhecido. O que se segue é uma trama de episódios típicos da adolescência, que parece vir para substituir a aparente alegria constante de uma infância produtiva e demonstrar que existem mais problemas na vida do que encarar o velho brócolis - algo que devo confessar que só aprendi a comer recentemente, depois de 25 anos. 

A percepção geral é a de que a crítica especializada, em sua imensa maioria, compreendeu o filme como "a amável ideia e um grande fator de novidade que remete ao que acontece em nossa imaginação e em nossos mais íntimos recessos, e os dá uma voz e uma face: o filme é direcionado à crianças e adultos, porque (...) todas essas emoções - as primárias - residem dentro de nós", nas palavras de uma colunista indiana, e a essa altura já deve estar evidente a relação entre a concepção de mente e mundo interior retratada pela citação que abre este texto e os conceitos desenvolvidos no filme. Se não for o caso, aí vai: nas palavras de outro crítico britânico, "ambas retratam um mundo em que as emoções não são apenas reações ou subprodutos, mas agentes ativos; elas tem o poder de decidir para onde vai o drama". 

E as perguntas que se seguem imediatamente são, (1) será que essa é uma boa forma de ver a mente e o chamado mundo interno? (2) O que ensinamos quando afirmamos que um lugar dentro do cérebro de Riley é onde, para um crítico norte-americano, "todos seus pensamentos e sentimento se originam"?

As respostas para essas perguntas não são simples, tampouco definitivas, e alguns parágrafos a respeito não podem esgotar a questão, alvo de debates filosóficos, científicos e religiosos há mais de dois mil anos e de intensa discordância ainda nos dias atuais. Dito isso, o que posso fazer nesse pequeno espaço é me posicionar a respeito das ideias em questão, que considero de uma importância social tremenda, e minhas respostas são, respectivamente: (1) não, não é uma boa forma; (2) ensinamos que o que acontece com as pessoas é, fundamentalmente, culpa delas, porque separamos o humano de seu mundo físico e social por tratar a mente como um mundo fictício, e porque localizamos esse mundo fictício, "os agentes ativos que tem o poder de decidir para onde vai o drama", dentro de cada um. 

Começo pela segunda questão para ilustrar a primeira. O primeiro problema é dividir uma pessoa, Riley, ou um organismo, em dois compartimentos estanques: externo e interno. Afirmar isso é perder de vista Riley como um todo, em interação com o mundo ao seu redor. Esse organismo é físico, é de constituição biológica, e dentro dela (ou debaixo de sua pele) há tecido orgânico, assim como o mundo ao seu redor é também físico, a escola, a casa, o time de hóquei, e assim por diante. Logo, Riley interage por inteiro - e não só seu cérebro ou sua mente - com o mundo à sua volta.

O segundo problema é a ideia de dividir o mundo em mental e físico, por vezes associada à ideia de interno e externo, ainda que não necessariamente. Se Riley é um organismo, físico, constituído de matéria orgânica, aonde está o mundo mental, ou a central de comando, e do que ela é feita? Se respondemos que estão dentro de Riley, "dentro de sua cabeça", as perguntas continuam sem resposta satisfatória, e mais, como ela age sobre a jovem a ponto de controlar suas açoes, como fazem Alegria e suas companheiras emoções? A conclusão mais interessante me parece:  nada disso existe. Isso não significa que emoção, pensamento, sentimentos, não existem, mas simplesmente que não são "mentais" ou "internas", tampouco estão "dentro" de Riley ou "em sua cabeça". O importante é compreender o que acontece nesses processos, que são reais, mas somente por conta de Riley interagir com o mundo ao seu redor, como um todo.


Painel de controle que é comandado pelas emoções.

Chegamos então à primeira questão. Se continuarmos mantendo essas divisões entre interno e externo, mental e físico, entre outras variações semelhantes, chegamos à uma ideia muito conhecida de que aquilo que acontece com as pessoas é culpa delas, já que suas ações são comandadas por sua "central de comando interna", por sua "mente", por seu "mundo interno". Além de dividir o indivíduo em compartimentos, como suas personalidades curiosamente retratadas por ilhas, continuamos dividindo a pessoa do mundo ao seu redor, que tem seu papel muito reduzido, quando não anulado, e a trama interna de Alegria e Tristeza enquanto protagonistas é um bom exemplo da supervalorização dessa forma de pensar. De fato, boa parte das religiões e filosofias tradicionais também dividem o mundo em espiritual e físico, mental e físico, interno e externo, e no cotidiano é comum ouvirmos que alguém chegou onde chegou por mérito seu, por esforço e capacidade suas, ou que errou por incompetência, por falta de esforço e de força de vontade também suas. Ora, nada mais justo, já que o problema é em sua central de comando! Quando muito as atribuições de comando deixam de ser do mundo interno e passam ao plano espiritual, mas as pessoas parecem mais dispostas a assumir o crédito por seus seus acertos do que a responsabilidade seus erros.

Essa perspectiva está na base e ajuda a perpetuar toda forma de marginalização social e culpabilização que (não) tem sustentação em diferenças "inatas" entre as pessoas. O rascismo, ou a ideia de que o branco é de alguma forma superior a outros povos; o machismo, ou a ideia de que o homem é de alguma forma superior à mulher; o capacitismo, ou a ideia de que as pessoas de desenvolvimento típico são de alguma forma superiores aos de desenvolvimento atípico; são diferentes formas de opressão que ganharam terreno no curso da história e podem levar ao colonialismo, à exploração e, em última instância, ao holocausto tal como vimos no período do nazifascismo e, infelizmente, continuamos a presenciar atualmente.
 
A forma mais interessante de compreender a complexidade do comportamento humano, entendido como tudo que faz uma pessoa em interação com o mundo ao seu redor, parece ser parar de fragmentar e dividir o mundo físico e social, na maior parte das vezes em dimensões fictícias, não físicas, e atribuir a esse mundo imaginário, essa ficção explicativa, poder de comando sobre o mundo físico.

Divertida Mente, com todas as suas qualidades evidentes bem destacadas pelas críticas positivas, as quais eu reitero, e na condição de um dos filmes comerciais mais lucrativos e criativos dos últimos tempos, exerce uma função nessa cadeia de propagação de uma visão de mundo fragmentada e culpabilizante, e não surpreende ser tão bem recebido mesmo entre a comunidade científica. Longe de apostar na existência de "homúnculos internos", ou pessoinhas dentro da cabeça, a ideia de dois mundos diferentes ainda é uma concepção forte socialmente. 

Em resumo, novamente nas palavras de um psicólogo da década de setenta, "o apelo para estados e processos cognitivos é um desvio de atenção que bem pode ser responsável por muito de nossa falha em resolver nossos problemas. Nós precisamos mudar nosso comportamento e só podemos fazê-lo mudando nosso ambiente físico e social. Nós escolhemos o caminho errado já de início, quando fazemos a suposição de que nossa meta é mudar 'mentes e corações de mulheres e homens' ao invés do mundo em que eles vivem"
 


Quem sabe por dentro é mais legal?, a frase que dá título a este texto, é uma fala de Alegria que tem lugar quando Riley e seus pais estão diante da casa nova de São Francisco. Ela se refere à casa, mas não poderia ser mais representativa da temática deste texto: infelizmente, quando se trata de compreender e explicar o comportamento humano, para a maioria das pessoas parece que "olhar para dentro" é sempre mais legal.

3 comentários:

Cássio disse...

Olá, Diego!
Um seu texto é muito positivo, pois, nos traz uma outra perspectiva para esta questão, já que nos dias dias atuais, o opinião emitida por "alguém que faz parte da comunidade científica" quase se tida como uma verdade absoluta, até outro alguém substituir esta verdade por outra.

Porém, fiquei um pouco pensativo com algumas colocações. Não estou colocando em xeque a sua exposição, inclusive, porque a minha formação não me permite embasar de forma mais científica como você fez (sou adminsitrador de empresas e coach). Porém, quando você coloca: "Nós precisamos mudar nosso comportamento e só podemos fazê-lo mudando nosso ambiente físico e social".

De alguma forma você também não apresenta um olhar simplificado e quase dual desse processo?

No meu entendimento e pelas experiências como coach, percebo claramente que as mudanças nos indivíduos, quase em sua totalidade decorrem da mudança de comportamento.

Assim sendo, as mudanças no ambiente e social não são também fruto da alteração do comportamento que se reflete nessas duas instâncias?

Na minha opinião, como bem ditas em algumas partes do seu texto, as transformações do homem, da sociedade e do ambiente decorrem da troca multidirecional e não linear de informações, experiências, emoções, percepções e de tudo mais que pode interferir em nossa leitura de "mundo".

É isso.

Desculpe-me pela falta de embasamento científico. Deixei-me pelos meus mapas. rs.

Sucesso!!!

Diego M. Fernandes disse...

Cássio, obrigado pela leitura e pelo comentário!

Acho que mais concordamos do que discordamos, mas eu diria que você não muda comportamentos, você muda ambientes que produzem mudança de comportamento. Ambiente como cenário, como ocasião para comportamento, é tudo que você pode manipular, já que comportamento não é uma coisa que você pode imobilizar, é fluido, é evanescente, é processo.

Logo, você, como coach, produz mudanças nos ambientes de seus clientes, o que serve de ocasião para que eles se comportem de forma diferente e produzam consequências diferentes, que os modificam enquanto indivíduos.

Por isso a ênfase no ambiente, que não tem nada a ver com dentro ou fora, e sim com ocasião para ação.

Um abraço

Lucas Augusto disse...

Só de você ter de usar "um psicólogo dos anos setenta" pra referir ao autor das frases já mostra o quanto essas ideias são, infelizmente, mal recebidas e injustamente mal vistas, tanto pelo público acadêmico quanto pelo público leigo. Ademais, muito bom o texto. O mesmo psicólogo já dizia que só seria possível mudar os problemas que enfrentamos no mundo caso mudássemos nosso modo de ver o comportamento humano.

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