terça-feira, 24 de novembro de 2015

O (des)encontro de contrapalavras


*Meus agradecimentos à coautora e cúmplice nestas reflexões, a linguista Monique Amaral.



A verdade de um enunciado de fato é limitada pelas fontes do comportamento do falante, pelo controle exercido pelo cenário atual, pelos efeitos de cenários semelhantes no passado, e pelos efeitos sobre o ouvinte, que conduzem à precisão ou ao exagero, ou à falsificação, e assim por diante. Não há como uma descrição verbal de um cenário ser absolutamente verdadeira.
                                                                                                                                            (Skinner, 1974)


As ciências exatas são uma forma monológica de conhecimento: o intelecto contempla uma coisa e pronuncia-se sobre ela. Há um único sujeito: aquele que pratica o ato de cognição (de contemplação) e fala (pronuncia-se). Diante dele, há a coisa muda. Qualquer objeto do conhecimento (incluindo o homem) pode ser percebido e conhecido a título de coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado a título de coisa porque, como sujeito, não pode, permanecendo sujeito, ficar mudo; conseqüentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico.
(Bakhtin, 1974)




É interessante notar a trajetória de duas contrapalavras historicamente importantes, antagonistas de movimentos intelectuais razoavelmente semelhantes, e que, por caminhos distintos, chegaram a conclusões bastante compatíveis. Me refiro aqui ao movimento de resistência e inquietação de ambas diante de um modelo dominante de fazer ciência do início do século XX, a busca positivista por uma unidade entre as ciências, de preferência sob o guarda chuva das ciências da natureza.

A primeira contrapalavra vem do grupo de estudiosos que ficou conhecido como Círculo de Bakhtin, pelo papel de destaque e proeminência do pensador russo Mikhail Bakhtin. Interessados em recuperar o lugar da linguagem nos estudos da emergente linguística, que se voltava para o estudo de uma abstrata língua pelas mãos de Ferdinand de Saussure e do estruturalismo, e preocupados em oferecer um modelo alternativo a esse paradigma de ciência “dura” e objetivista, os integrantes desse movimento científico e filosófico se esforçaram por produzir um alicerce filosófico, conceitual e metodológico para a investigação de fenômenos humanos e sociais que podem ser compreendidos, grosso modo, como atividade humana, tais como linguagem e produção de sentidos. Seu posicionamento é, em certo sentido, uma reação às propostas que chamaram de subjetivismo idealista, de um lado, e objetivismo abstrato, do outro lado. A primeira trata a língua como produto do psiquismo, como relativamente instável e originada (iniciada) pelo falante, sendo o ato de fala entendido como fenômeno individual – tira o social de foco. A segunda afirma a existência da língua como um objeto estável que existe em si, independente do observador.

O resultado é uma vasta produção sobre os diversos contextos e características da atividade sígnica (e consciente) humana, que configuram aquilo que chamaram de os diferentes gêneros do discurso, ou seja, a noção de que a linguagem utilizada nos mais diversos campos da atividade humana, sejam eles orais ou escritos, é elaborada e “organizada” através de tipos, formas relativamente estáveis, ainda que não estáticas. Tal proposta é calcada na predileção pelo estudo daquilo que é variação e daquilo que é singular, que é da ordem do irrepetível, em oposição à generalização e à repetição, típicos do modelo de ciência dominante (à época, início do século XX, e talvez ainda hoje).

Os esforços desses pensadores, conjuntamente com a ascensão de outros modelos de investigação da linguagem naquilo que tem de singular e heterogênea, se consolidaram nos movimentos históricos da segunda metade do século XX, chamados genericamente de “linguística textual”, e também os “estudos do discurso”, ou “discursivos”. O estruturalismo e suas limitações – tomadas como herdadas do modelo de ciência no qual se funda – é o grande inimigo desses movimentos, ao esvaziar a contradição e o movimento em nome da universalidade e da generalidade, e ao esquecer a linguagem e recortar a língua em menores unidades, cometendo o então mortal pecado de separar o todo em partes, nessa pretensiosa busca de um quadro inteligível através do microscópio científico.

Agora vamos à outra contrapalavra. Do outro lado das trincheiras do saber, uma empreitada ousada também tomava forma, o famoso (e não menos infame) behaviorismo, que tomaria muitos caminhos e daria origem a tantas versões (há quem conte mais de 20), mas que teve seu auge e, de certa forma, se mantém relevante, no Behaviorismo Radical. Formado em letras, B. F. Skinner interessou-se por psicologia lendo, entre outras coisas, uma resenha de Bertrand Russell ao behaviorismo de John Watson, conhecido como behaviorismo clássico. Ingressou no doutorado em psicologia em Harvard, mas, avesso ao mainstream psicológico de seu tempo, acabou encontrando mais espaço para fazer aquilo que era de seu interesse no departamento de fisiologia, sob os auspícios de William Crozier, herdeiro de Jacques Loeb. Naquela época, início da década de 1930, ainda predominava o behaviorismo do tipo estímulo-resposta (S-R), mas Skinner foi além e, ao longo de sua carreira – ainda que tal evolução já ficasse nítida em seu primeiro grande trabalho, O Comportamento dos Organismos, datado de 1938 – tornou-se um crítico ferrenho dessa limitada perspectiva psicológica, bem como um proponente de uma alternativa, a Análise Experimental do Comportamento.

Resumidamente, Skinner produziu uma psicologia, ou uma ciência do comportamento, que não se limitava ao que era observável (colocou a subjetividade de volta no mapa), que não excluía processos cognitivos, e que não se limitava apenas ao estudo de fenômenos humanos ou não humanos, mas buscou um modelo explicativo baseado na tese de continuidade entre as espécies do modelo darwinista. Sua investigação era fundamentalmente experimental, seguindo o conselho de Pavlov: “arranje propriamente as condições e encontrará ordem”, e seu tratamento dos dados muito parecido com o das chamadas ciências “duras”, quantitativo. A investigação cuidadosa de fenômenos isolados no laboratório deu origem, indutivamente, à descrição de leis gerais e princípios básicos do comportamento, posteriormente testados em diversas espécies e largamente verificados em contextos diversificados. Das ciências naturais nascia uma ciência humana.

Entre os problemas atacados por Skinner estava o da linguagem e, consequentemente, da produção de conhecimento. Herdeiro intelectual do físico e filósofo austríaco Ernst Mach, dispensava as noções clássicas de causalidade mecânica em troca do modelo de relações funcionais entre as variáveis de estudo, entre outras palavras, se ocupava de investigar a mudança no comportamento (ações específicas do organismo) tomado como variável dependente, em função da manipulação de aspectos de seu contexto, as variáveis independentes. O comportamento verbal foi uma de suas principais preocupações, tendo demorado 20 anos na produção de seu famoso O Comportamento Verbal, no qual se dedica a demonstrar a generalidade dos princípios básicos do comportamento no campo do comportamento verbal, tratado também como função das relações do organismo que se comporta com seus ambientes (eminentemente verbais, ou seja constituídos de outras pessoas).

Uma forma importante de comportamento verbal é a produção científica, compreendida por Skinner como mais uma atividade humana e, como tal, compreensível à luz dessa ciência do comportamento. Notadamente, perspectivas estruturalistas e universalizantes, excessivamente formalistas ou matematizantes, também eram problemáticas para Skinner. Enquanto atribuíam o comportamento a fenômenos observáveis em qualquer outro nível de investigação, como processos cognitivos, mentes imateriais, aparelhos cognitivos metafóricos e assim por diante, tomando-o como epifenômeno, se voltavam para a descrição dele, eventualmente na esperança de inferir os processos que o explicariam. A essência da crítica de Skinner é a de que tal fazer científico reproduz uma visão fracionada do fenômeno comportamental, mantendo a cisão entre os mundos físico e mental, além de enfatizar demais a descrição das formas do comportamento (estruturas da língua, da mente, do pensamento) e perder de vista as variáveis das quais são função. Em outras palavras, ao tratar a atividade científica como comportamento, a explicação dessa atividade precisa ser a explicação do próprio comportamento.

Explicar a linguagem, portanto, para Skinner, era tarefa de uma ciência do comportamento, preocupada com os fenômenos e processos que dão origem ao objeto de estudo dos estruturalistas, as diversas manifestações do comportamento verbal. Esta é mais uma manifestação do conflito vivido pelos linguistas do texto e do discurso em relação a uma linguística que se detém sobre amostras de língua e ignora seus contextos sociais e históricos de produção, ou os processos de linguagem. O curioso é que, de uma forma ou de outra, duas perspectivas de produção de conhecimento a princípio opostas reagem a um incômodo em comum, e produzem duas críticas à ciência e ao fazer científico (linguagem) dominantes extremamente parecidas, ainda que partindo de lugares francamente antagônicos.

Enquanto os linguistas ou estudiosos da linguagem buscaram romper com a unicidade formal e lógica pretendida pelos positivistas lógicos, produzindo uma “heterociência” dos fenômenos humanos complexos, para eles carentes de seus próprios métodos de investigação dada sua natureza social, histórica e alteritária, os behavioristas radicais produziram uma alternativa a essa pretensão positivista lógica no seio das próprias ciências ditas “duras”, produzindo uma ciência e uma filosofia do comportamento que versam sobre problemas da ordem do comportamento e da linguagem de forma por vezes compatível e muito semelhante à dos estudiosos da linguagem: a análise de relações funcionais entre comportamento e os ambientes que o selecionam. Em outras palavras, a seleção do comportamento por suas consequências filogenéticas, ontogenéticas e culturais, que por definição é histórica (cada história de seleção é única e irrepetível) e, pela natureza do fazer científico, social.

O relacionismo, o contextualismo, a importância de cada evento - único e singular, o papel das relações sociais, a predominância da linguagem na formação da cultura, e a ênfase na alteridade, ou no papel das consequências na relação com o mundo (frequentemente composto por outras pessoas), entre outros aspectos fundantes, são algumas dessas conclusões compartilhadas. Precisamos avançar para além dos estereótipos generalizantes que, a despeito da declaração de confiança em uma proposta de heterociência e de uma ciência das relações, alguns de seus maiores proponentes parecem se agarrar com unhas e dentes, em flagrante contradição com as bases de uma atitude de investigação centrada na singularidade e no contexto histórico e social.


O fato é que ambas as propostas fazem uma ciência e uma filosofia sobre “coisa alguma”, no sentido de que as questões que se propõem a debater e as respostas que eventualmente produzam só podem enfatizar relações, jamais uma “coisa” em si. Tal perspectiva relacionista da atividade científica pressupõe justamente que não estudemos nada como coisa, senão como relação entre eventos. “Dialogia” e “contingência” são dois nomes diferentes para relações entre fenômenos do mundo, particularmente entre o que é humano (definido em relação ao que não é) e o resto do mundo.

Como evidência dessa possível convergência, deixo aqui uma passagem de um livro chamado Comportamento e Sensibilidade: vida, prazer e ética, de J. A. D. Abib, mas que passaria por uma citação bakhtiniana tranquilamente

A cultura da identidade, ou seja, a reprodução do passado, das tradições, do mesmo, do similar, deve ser deslocada para um segundo plano ou pode até mesmo ser abandonada. Com essa estratégia, a cultura da alteridade, a cultura que estabelece as condições as condições para o afloramento da pluralidade e diversidade, que são necessárias para a compreensão de mundos diferentes, toma a frente do processo de educação da sensibilidade. Uma educação da alteridade ressalta exatamente os aspectos que uma cultura da identidade passa por alto ou até mesmo desestimula, como, por exemplo, os desvios, os erros, os acidentes, o imprevisto e o novo"


Referências
Abib, J. A. D. Comportamento e sensibilidade: vida, prazer e ética, 2007.
Bakhtin, M./Voloshinov, N. Marxismo e filosofia da linguagem, 1929.
Bakhtin, M. Metodologia das ciências humanas, 1974.
Skinner, B. F. Um estudo de caso no método científico, 1956.
Skinner, B. F. Sobre o behaviorismo, 1974.
Xavier, A. C. e Cortez, S. Conversas com linguistas: virtudes e controvérsias da linguística, 2003.

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