quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Psicologia Cultural da Religião e Análise Comportamental da Cultura: uma ponte.

Uma vez assisti a uma banca de uma aluna da Sandra Calais, professora do Programa da Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, na UNESP-Bauru​, sobre efeitos da religiosidade no enfrentamento do stress em religiosos, se não me engano de vertentes cristãs católicas e pentecostais. Chamou minha atenção a fala de um dos membros da banca, um padre e professor de pós graduação da PUC-SP, Edênio Valle; erudito, equilibrado e com um entendimento muito claro do que constitui uma "psicologia científica" (suas palavras) e sua contribuição para os estudos da religião.
 
Em outro momento, em conversa com minha amiga multi capacitada Rosângela​, formada em mais coisas do que eu imaginei que fosse possível e que cultiva laços em comum com o professor Edênio, por conta de seu mestrado em Ciências da Religião, mencionei tal episódio, e ela compartilhou meus elogios e me emprestou uma edição física do periódico Rever - Revista de Estudos da Religião, organizada pelo pessoal do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião, também da PUC-SP. O empréstimo foi para que eu conhecesse a área e pudesse ler um artigo do Edênio, disse ela: "já que você ficou tão encantado com ele falando, veja se também gosta dele escrevendo".

Demorei um bom tempo para finalmente abrir e ler o livro, talvez mais tempo do que deveria ou gostaria. O fato é que dois artigos me chamaram a atenção. O primeiro é de Jacob A. Belzen, holandês importante para as psicologias da religião, chamado Religião e Ciências Psicológicas: considerações críticas. Em linhas gerais, o autor faz apontamentos sobre o papel do psicólogo no acolhimento, estudo e compreensão dos ditos fenômenos religiosos, o que se limita, segundo Belzen, à sua dimensão psicológica, ou seja, ao psicólogo aquilo que é psicológico. Talvez o principal pano de fundo seja uma suposta oposição entre ciências de um lado e religiões de outro, bem como a normatização e patologização de manifestações religiosas. Pessoalmente, achei o tema banal, mas o autor nos lembra que paradigmas biologizantes e medicalizantes trabalham com uma perspectiva patologizante, que tende a causar estragos nas normatizadas vidas das pessoas, e então me toquei de que basta uma olhada em coisas como "Universo Racionalista" e uma cruzada de ateus ou "neoateus" contra qualquer tipo de manifestação religiosa que a crítica se justifica.

O segundo, de autoria do professor Edênio, consiste em um comentário estendido sobre um livro aparentemente importante e à epoca recém lançado, Por uma Psicologia Cultural da Religião, escrito pelo mesmo Belzen, autor do primeiro artigo mencionado. Edênio se propõe a fazer uma "leitura brasileira" do livro, apontando suas virtudes e seus insights importantes para os psicólogos da religião brasileiros e do resto do mundo, bem como pontuando o quanto os avanços da área no Brasil, empreitada da qual ele próprio é parte fundamental, por vezes convergem com as considerações de Belzen, especialmente no que diz respeito ao comprometimento com a dimensão cultural da religião. Em outras palavras, trata-se de levar a cultura a sério na compreensão dos fenômenos religiosos.

Edênio conta que Belzen não se propõe, nessa obra, a uma introdução à Psicologia Cultural da Religião, mas sim a oferecer elementos (princípios, enfoques e aplicações), "apontar as vias que podem conduzir à formulação de uma correlação mais bem articulada entre Psicologia, Cultura e Religião" (p. 224). O convite de Belzen enfatiza que "a Psicologia contemporânea da Religião precisa partir para uma articulação sistemática entre os três campos acima mencionados, campos estes que a maioria dos psicólogos - também os que se dedicam ao estudo da religião - tendem apenas a justapor" (p. 224).

A importância de considerar seriamente o papel da cultura na explicação do comportamento, além de ser um pressuposto do modelo explicativo comportamentalista radical - a seleção por consequências nas esferas filogenética (história de evolução das espécies), ontogenética (histórica de desenvolvimento individual) e cultural (história de evolução dos ambientes sociais, ou culturas) - é também um aspecto que ganha força já há algum tempo também na Análise do Comportamento. Os esforços vão se ampliando sistematicamente na investigação dos aspectos comportamentais da cultura, ou seja, na busca de relações comportamentais, ou relações funcionais entre o comportamento de organismos e seus ambientes sociais amplos, ou culturas, constituídos de muitas outras pessoas se comportando de forma entrelaçada (Carrara, no prelo). Chamou a minha atenção nos apontamentos de Belzen (bastante reiterados por Edênio) uma passagem do livro recuperada no artigo:

"dito de modo simples, a Psicologia Cultural da Religião não busca pesquisar dentro do ser humano suas crenças, sentimentos, raciocínios e comportamentos, mas, antes, tenta compreender como a forma específica de vida em que uma pessoa está imersa constitui e constrói os sentimentos, os pensamentos e a conduta dela" (Belzen, p. 122, citado por Valle, p. 224).

Aproveito o conveniente título do primeiro capítulo do livro de Belzen, "construíndo pontes", para ler essa citação com os olhos de um comportamentalista radical. É fundamental saber que podemos ter um aliado nas Ciências da Religião, incluindo aí as psicológicas, na busca da compreensão "das formas específicas de vida em que uma pessoa está imersa e que constituem e constróem seus sentimentos, seus pensamentos e sua conduta". Certamente não era bem isso que Belzen (e Edênio) tinham em vista ao escrever (e posteriormente comentar) a obra, mas me parece inevitável a proximidade deste projeto com a busca behaviorista radical da descrição - e consequente explicação - das relações funcionais entre os comportamentos religiosos dos organismos e os ambientes sociais que os modelam e mantém.

Um primeiro passo nessa direção, ao menos em termos comportamentalistas radicais, foi dado por Skinner em seu Ciência e Comportamento Humano, de 1953. Caminhando da descrição de uma emergente ciência das relações comportamentais em direção à uma análise do comportamento social e de ambientes sociais amplos, ou culturas, o autor descreveu a religião, entre outras instituições sociais importantes, como uma agência de controle, ou seja, sistemas sociais minimamente organizados de controle social, cuja prerrogativa é organizar contingências que modelam e mantém o comportamento de seus controlados, os religiosos. Segundo Skinner, a tendência dessas agências é a de organizar a vida social de modo a reproduzir e ampliar seu próprio poder, e nossa tarefa enquanto analista do comportamento, portanto, é a de descrever tais contingências, trazer luz às técnicas de controle (nem sempre ruins ou negativas, que fique claro) empregadas pelas agências, e então instrumentalizar as pessoas a exercer o chamado contracontrole, balanceando ou mesmo alterando completamente o sistema social vigente.
 
Ainda hoje há problemas na forma como as agências religiosas, profundamente entrelaçadas a outras agências e com vistas a manter um certo grau de poder sobre os controlados, lidam com uma investigação científica dos fenômenos e processos ditos religiosos. A principal manifestação contemporânea realmente relevante do interminável conflito "ciência vs. religião" parece se manifestar justamente no papel de controle social coercitivo de boa parte das agências religiosas, com variado grau conforme variam as cosmologias, costumes, e assim por diante. Em essência, falo de quando a religião insiste em manter seu poder de decidir sobre a vida do grupo maior de pessoas, e talvez os exemplos mais claros disso sejam os retrocessos na garantia dos direitos humanos e do reconhecimento político e cidadão de setores marginalizados socialmente, patrocinados em grande medida pelos setores conservadores entrincheirados no poder público e na mídia.

Como me ajudou a perceber uma madrugada dessas com um dos melhores pesquisadores e analistas do comportamento que eu conheço, meu bom amigo Guilherme, felizmente, ao menos para alguns segmentos de pessoas envolvidas com ciências e com religiões, a manifestação ontológica desse conflito, ou seja, disputas sobre qual seria a narrativa oficial da existência das coisas, guiadas por perguntas do tipo "o que é?" a respeito de fenômenos e processos os mais amplos, incluíndo aí os tipicamente religiosos, não configuram um problema explícito para o projeto de uma Psicologia Cultural da Religião, tampouco para uma Análise Comportamental da Cultura. 

Especificamente no caso do analista do comportamento, seu interesse é a realidade comportamental, ou seja, é a relação do comportamento das pessoas com o mundo ao seu redor, o que torna perguntas do tipo "o que é isso?" menos produtivas nessa empreitada do que perguntas do tipo "como lidar com isso?", "como isso funciona?", "como investigar/conhecer isso?", "como intervir diante disso?" (Carrara, no prelo). O comportamento religioso é só mais uma forma de agir em relação ao mundo ao entorno (Guerin, 1998), e a ênfase apontada por Belzen é na ampliação desse mundo, não mais ao entorno imediato do indivíduo que se comporta, mas para seus contextos mais amplos. De pleno acordo está o analista comportamental da cultura, cuja ênfase é nas relações comportamentais entrelaçadas que constituem as contingências de reforçamento e punição sociais amplas.

Espero que possamos estabelecer mais pontes com as demais sub disciplinas e áreas de produção de conhecimento a respeito do comportamento de forma geral. A religião é parte importante da vida em sociedade, gostemos ou não, e não há motivos aceitáveis para deixar de lado tais contingências sociais. Talvez o livro de Jacob A. Belzen, Por uma Psicologia Cultural da Religião, seja um bom lugar para começar, além da extensa produção do professor Edênio Valle e os grupos de pesquisa em ciências e psicologia da religião espalhados pelo Brasil afora.


Referências
Belzen, J. A. Religião e Ciências Psicológicas: considerações críticas, 2012.
Carrara, K. Uma ciência sobre "coisa alguma". Relações funcionais, comportamento e cultura, no prelo.
Guerin, B. Religious behavior as strategies for organizing groups of people: a social contingency analysis, 1998.
Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano, 1953.
Valle, E. Uma leitura brasileira de "Para uma Psicologia Cultural da Religião", de Jacob A. Belzen, 2012.



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