quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Evolução, sociedade e consequências: conversando com a Antropologia

Quanto mais Antropologia boa eu leio, mais me convenço da importância da seleção por consequências como um modelo explicativo. Explico.

Em um ensaio chamado "Evolução e Sociedade", publicado em 2003, embora originado de uma fala ocorrida no ciclo de palestras de 1995 intitulado Darwin College Lectures, na Universidade de Cambridge, o antropólogo britânico Tim Ingold apresenta suas reservas em relação a posições dominantes na biologia evolutiva neodarwinista, especificamente as genecentradas. Para ele, todo o projeto da síntese neodarwinista se assenta em um paradoxo fundamental típico do "pensamento ocidental": a pretensão de observar o mundo pelo lado de fora.

Mais pormenorizadamente, o que Ingold critica é a separação tipicamente ocidental entre evolução e história. A evolução consistiria no processo natural de mudança e constante surgimento de descendência com modificações nas mais variadas formas de vida, tendo início nas estruturas moleculares mais simples e produzindo as formas de vida as mais variadas e complexas possíveis. A história, por sua vez, seria a história humana a partir da evidência da existência de povos caçadores coletores, largamente influenciada por ideais iluministas do século XVIII e que seria contada e recontada, diferentemente da evolução orgânica, pelo homem anatomicamente moderno e sua ciência. Em outras palavras, enquanto a evolução é um processo sem direção que engloba toda forma de vida, não estabelecendo diferença entre animais humanos e não humanos, a história é o processo pelo qual o homem se reinventa e produz sua própria existência, em sociedades, ao ponto de ser consciente de sua própria mudança, consciência essa simbolizada pela figura do cientista.

A grande questão aqui é a seguinte, ainda com o próprio Ingold: enquanto a biologia neodarwinista (ou boa parte de seu mainstream) afirma a continuidade entre o mundo orgânico e aponta diferenças apenas de grau, sua própria argumentação depende da aceitação da diferença de tipo entre a evolução e a história, essa última largamente baseada nos acontecimentos entre as sociedades dos caçadores coletores e a sociedade moderna. A história social seria diferente da história natural na mesma medida em que o comportamento humano não é mais produto "apenas" de uma natureza geneticamente programada, como supostamente seria o típico caso do caçador-coletor, mas de um ambiente social histórico, como no caso do cientista.
"Esta contradição não é, naturalmente, senão um exemplo específico de um paradoxo mais geral que repousa no coração do pensamento ocidental, que  não  tem  nenhuma  forma  de  compreender  o envolvimento  criativo  dos seres humanos no mundo, exceto por tirá-los fora dele. O desprendimento ou o desembaraço do observador humano do mundo a ser observado, para permitir a dicotomia entre a razão e a natureza, é, na verdade, o ponto central para o projeto  da  ciência  natural,  incluindo  a  ciência  da  biologia  evolucionária" (2003, p. 18).

Essa é a primeira parte da questão, que tem implicações para além de uma crítica à síntese neodarwinista, mas a todo um modelo de investigação sociológico, antropológico e também biológico. No que diz respeito à própria dicotomia natureza-cultura, que para alguns se dá de forma dialética até o ponto em que o trabalho cria um mundo novo, diferente do anterior, Ingold aponta outro caminho:
"Deixe-me sugerir uma analogia com a agricultura. Os fazendeiros não criam as plantações, eles as cultivam. Através  de  seus  trabalhos  no  campo,  estabelecem  as  condições  ambientais para  o  desenvolvimento  saudável  das  plantas.  Agora,  assim  como  os fazendeiros cultivam as plantações, assim também as pessoas "cultivam" umas
às outras. E é no cultivo das pessoas, sugiro eu, e não na criação da sociedade que a história é formada.
Podemos agora ver como, considerando a "pessoa em seu ambiente", em vez do "indivíduo auto-suficiente", como nosso ponto de partida, é possível dissolver  a  dicotomia  entre  a  evolução  e  a  história,  que  tem  sido  a  fonte  de tantos problemas e mal-entendidos no passado. Como um movimento em que as pessoas, mediante suas próprias práticas sociais em relação uma às outras, estabelecem  suas  respectivas  condições  de  desenvolvimento,  a  história  é, senão,  um  exemplo  específico  de  um  processo  que  está  prosseguindo  no mundo orgânico. Por isso, não precisamos de uma teoria para explicar como os macacos  se  tornaram  humanos  e  uma  outra  para  explicar  como  (alguns) humanos  se  tornaram  cientistas.  E  reconhecendo  que  a  história  é  a continuação de um processo evolucionário mediante um outro nome, o ponto de  origem  constituído  pela  interseção  das  linhas  históricas  e  evolucionárias desaparece  e  a  busca  para  as  origens  da  sociedade,  da  história  e  da  humanidade torna-se uma busca atrás de uma ilusão" (21)

Para resolver o que chamou de "paradoxo da distinção da continuidade", Ingold buscou nas credenciais da Antropologia, disciplina especialmente qualificada para a tarefa tendo em vista sua familiaridade com os entendimentos não ocidentais, um "modelo de compreensão  humana  que  comece  a  partir  da premissa  de  nosso  comprometimento  com  o  mundo,  em  vez  de  nosso afastamento dele". Pautado em um modelo de sociabilidade diferente, o modelo relacional, inspirado na ecologia e nas relações harmônicas (ainda que em alguma medida predatórias) entre formas de vida humana não ocidentais, como os caçadores-coletores, a dicotomia natureza-história perde o sentido, porque se desenvolve com base em um modelo de sociabilidade tipicamente ocidental em que o indivíduo e a natureza, e posteriormente o indivíduo e a sociedade, entraram em rota de colisão.

Como se a questão natureza versus história não fosse importante o bastante, o autor prossegue para uma outra consequência de suas argumentações que me são particularmente caras enquanto analista do comportamento, a diferenciação clássica entre filogênese e ontogênese, sustentada por esse modelo de investigação tipicamente ocidental por ele criticado. 

"Não  é,  porém,  somente  a  divisão  entre  a  evolução  e  a  história  que derruba a argumentação que tenho proposto aqui. Também ataca o coração do princípio  central,  na  qual  a  teoria  ortodoxa  diferencia  entre  evolução e desenvolvimento ou entre filogenia e ontogenia. A base deste princípio é que o que  cada  indivíduo  recebe  de  seus  predecessores  é  uma  especificação  de forma  independente  do  contexto,  conhecida  como  o  genótipo,  que  é  então expresso ou "concebido" no curso de sua história de vida, na forma concreta de um fenótipo ambientalmente específico. Desde que a assim chamada doutrina lamarckiana  das  características  adquiridas  por  herança  foi  derrubada  por August Weismann, no fim do século XIX, tem-se assumido que somente as características do genótipo e não aquelas do fenótipo são carregadas por meio
das gerações.

O fato dos elementos constituintes  do  projeto  serem  assim  importados para  o  organismo,  como  um  tipo  de  arquitetura  evoluída,  antes  do desenvolvimento  do  organismo  dentro  de  um  contexto  ambiental,  é,  acredito, uma  das  grandes  desilusões  da  biologia  moderna. Reconhecidamente,  cada organismo inicia a vida com seu complemento de DNA no genoma, mas, por si próprio, o DNA não especifica nada. Não há "leitura" de código genético que não  seja  parte  do  desenvolvimento  do  organismo  em  seu  ambiente" (p. 22).

Prossegue o autor, unindo as pontas de sua crítica à dicomotia natureza-cultura, e à dicotomia evolução e desenvolvimento (filogenia e ontogenia): "Tudo  que  tenho  feito  neste  capítulo  é  estabelecer  a  verdade  desta proposição quanto aos seres humanos, que se desenvolvem num mundo social e fazem parte da produção da história" (p. 22). Em outras palavras, a única história que faz sentido é a constante história do desenvolvimento, que nada mais (ou nada menos) é do que a história das relações dos organismos com seus ambientes, que produzem diferentes genomas e diferentes sociabilidades.

É aqui que entra a seleção por consequências. Concebida como um modelo explicativo análogo à seleção natural, na pior das possibilidades tal proposta é tão ou mais reducionista quanto a própria insistência dos biólogos questionados por Ingold em um modelo gene-centrado para a explicação de tudo que é vivo. Mas essa é apenas a pior das possibilidades. Na sua forma usual, o modelo explicativo desenvolvido sob os cuidados da Análise do Comportamento e do Behaviorismo Radical se propõe a compreender o papel das consequências na história de desenvolvimento dos organismos como um todo, em suas relações com seus ambientes. O que isso significa?

Significa que, ao contrário das piores interpretações da proposição skinneriana, como a de alguns etólogos que tomaram a posição dos analistas do comportamento como uma negação à filogênese (no sentido criticado por Ingold, não deixa de ser verdade), e como a de alguns antropólogos e linguistas, que enxergaram no modelo uma nova versão de darwinismo social (crítica fortemente rechaçada por Skinner em seu Beyond Freedom and Dignity), a seleção por consequências é uma proposta sintética de explicação do poder de mudança das consequências das interações dos seres vivos ao longo de seu desenvolvimento. 

Sobre dissonâncias na proposição skinneriana do modelo e que vão na direção da melhor das interpretações que mencionei, quando questionado sobre a diferença entre sistemas vivos e sistemas físicos em entrevista de 1982, Ernst Mayr afirmou que as diferenças repousam sobre "a complexidade de organização e a posse de um programa genético". Skinner (1983) comenta a passagem de Mayr afirmando que ele não toca no ponto central, "organismos vivos diferem de coisas físicas porque apresentam seleção por consequências", e faz observação semelhante ao rebater o sociobiólogo E. O. Wilson e sua ênfase excessiva no papel dos genes na evolução.

Tal proposta não é diferente do ponto de vista sistêmico/ecológico que Ingold defende, e é igualmente crítica a dualismos típicos que o antropólogo se empenha em desconstruir.

A seleção por consequências é a própria história de modificação do organismo em função de suas relações com o ambiente, por ele também modificado. Aos incautos e apressados, vale a pena a ressalva: a proposta aqui - que na verdade é eco de outros trabalhos já seminais e uma tentativa mais recente de coordenação entre diferentes áreas do saber - não tem por objetivo substituir toda a biologia evolutiva pelo modelo de seleção por consequências; não tem por objetivo negar a importância das diferenças consideráveis entre os processos naturais e sociais, questão levantada pela Sociobiologia e largamente criticada por praticamente todo mundo que se propôs a discutir o assunto até então; não tem por objetivo aparecer com o caminho, a verdade, e a vida. O objetivo aqui é propor um panorama integrador das diferentes áreas do saber que possa, fundamentalmente, construir sobre uma base comum, agregando saberes antropológicos, sociológicos, biológicos, psicológicos, e assim por diante.

Talvez quem melhor tenha demonstrado o alcance dessa proposta é a pesquisadora estadunidense Susan Schneider, em seu A Ciência das Consequências: como elas afetam genes, mudam o cérebro e impactam nosso mundo. Abro aspas para a autora:

"Consequências proporcionam a motivação que manda borboletas às flores e pessoas à lua. A busca pela felicidade significa a busca por consequências, grandes e pequenas, o pôr do sol incluso. E consequências estão em todo lugar. Algumas são imediatas; outras se agigantam assustadoramente no horizonte e são antecipadas ou evitadas. Elas são boas, elas são terríveis, e são tudo que há no meio. Elas funcionam para tigres e tartarugas - e para nós. O quão irônico, então, é o fato de que as consequências e a ciência que se dedica a elas costumam ser frequentemente ignoradas" (2012, p. 14).


Referências 

Ingold, T. A evolução da sociedade, 1995/2003.
Skinner, B. F. Beyond Freedom and Dignity, 1971.
Skinner, B. F. Selection by consequences, 1981.
Skinner, B. F. Can the experimental analysis of behavior rescue psychology?, 1983
Schneider, S. M. The Science of the Consequences. How they affect genes, change the brain and impact our world, 2012.

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