sábado, 4 de junho de 2016

Segredos da Ciência


Segredos da Tribo é o nome de um documentário de 2010 dirigido pelo brasileiro José Padilha, largamente inspirado no livro lançado em 2000 Trevas do Eldorado, pelo jornalista Patrick Tierney. Ambos contam, cada um a seu modo e por mídias diferentes, um pouco dos bastidores daquela que é considerada a "ciência da alteridade" e "ciência do homem", e que atende pelo nome de Antropologia. 

Notem que me referi ao documentário como um retrato de bastidores da ciência antropológica do século XX, sem referência aos Ianomamis e sua importância para a história contada no filme, o que pode parecer um pouco indelicado, na melhor das hipóteses, e muito racista, na pior (e talvez mais acertada) das hipóteses. Mas minha descrição é proposital, por motivos que vou pontuar ao longo deste texto e que retomarei mais ao final.

Problema 1. O antropólogo estadunidense Napoleon Chagnon foi pioneiro no contato e estudo de um povo amazônico chamado Ianomami. Vivendo entre as matas da Amazônia venezuelana e brasileira, essas pessoas permaneceram um mistério para o "Ocidente" até meados da década de 1960, quando Chagnon se aventurou por essas bandas e iniciou pesquisas etnográficas na região, com o objetivo de estudar e compreender o modo de vida dos remanescentes "homens selvagens". Dentre as práticas do etnógrafo estão o escambo de ferramentas e objetos ocidentais caros aos indígenas, em troca de acesso irrestrito ao povo e aos rituais. Chagnon adquire o status de "indígena visitante", e viveria por muito tempo com os Ianomamis entre idas e vindas de suas expedições.

Entre as contribuições teóricas de Chagnon para a discussão milenar sobre a "natureza humana" estão seus dados etnográficos, estatisticamente ordenados de modo a corroborar sua hipótese sociobiológica de que a possibilidade de reprodução e, consequentemente, o domínio territorial e das mulheres, são os motores da evolução. Nesse cenário, escreveu livros já famosos em cursos de Antropologia, nos quais descreve os Ianomamis como ferozes guerreiros. Como o próprio Chagnon deixa claro em seu depoimento para o documentário, há uma briga antiga entre "clãs" da Antropologia: os antropólogos culturais e os antropólogos biológicos não concordam sobre os principais fatores responsáveis pelas mudanças e evoluções das culturas, os primeiros defendendo condições ambientais/sociais, os últimos defendendo condições biológicas, inclusive genéticas.

Problema 2. A polêmica sobre as hipóteses e os dados de Chagnon é largamente assunto acadêmico, não é mesmo? Vamos então a Kenneth Good. Estudante de Chagnon, o antropólogo estadunidense não concorda com as hipóteses de seu professor e, de acordo com a escola culturalista e com as ideias do materialista estrutural Marvin Harris, outro nome proeminente do cenário acadêmico estadunidense, vai a campo investigar as condições materiais de existência da tribo. Polêmicas a parte sobre as argumentações dos grupos em disputa, com as evidências sendo torcidas e repuxadas e pendendo hora para um lado hora para outro, Good se envolve com uma Ianomami de não mais do que 13 anos de idade. Argumentando em seu favor que os padrões daquela cultura permitem tal envolvimento, Good se casa com a jovem, tem três filhos com ela, mora por anos na região até que se mudam para Nova Iorque, e lança um livro sobre sua "história de amor" e sua jornada como antropólogo.

Problema 3. Além desses dois nobres personagens, um terceiro nome importante é Jacques Lizot. Aluno e protegido do grande Claude Lévi-Strauss, Lizot teria sido impelido pelo estruturalista francês a estudar os Ianomami em nome de desvendar sua língua e conhecer seus mitos, e assim o fez por décadas a fio. Lizot, assim como Chagnon, foi e ainda é uma autoridade a respeito dos Ianomami, tendo vivido por muitos e muitos anos com os indígenas, participado de missões em nome do governo francês e lançado dicionários e livros sobre as línguas Ianomamis. O grande porém é: há toneladas de indícios de que ele trocava objetos e ferramentas por favores sexuais de jovens das tribos, especificamente masturbação e sexo anal. Alguns desses jovens dão depoimento dos abusos no documentário, mas Lizot se recusou a participar.

Problema 4. Em uma dessas expedições às terras dos Ianomamis, o geneticista estadunidense James Neel, em parceria com Chagnon e outros profissionais, desenvolveu estudos sobre a genética populacional dos Ianomami, mas, para dificultar o trabalho do grupo, um surto de sarampo invadia a região, e um dos problemas que tiveram que enfrentar foi a proliferação da doença. O mencionado livro de Patric Tierney acusa ambos, James Neel e Chagnon, de não fazer nada para conter a doença e ainda administrar vacinas com doses de substâncias inadequadas ao tratamento dos indígenas; ainda, Tierney acusa Neel de tratar os indígenas como cobaias humanas, ou grupos controle, para investigar efeitos de exposição à radiação, a mando da Comissão de Energia Atômica. O resultado dessa complexa e desastrosa operação foi a morte de dezenas de pessoas, causando desolamento e devastação em grupos amplamente apoiados em parentesco.

*

Até então o que fiz foi uma breve descrição dos principais problemas abordados no documentário de Padilha. O fato é que a vida dos Ianomami parece ser o tempo todo apenas um pano de fundo para embates acadêmicos e políticos. Tierney e Padilha resgatam as vozes dos indígenas para fazer a crítica ao mundo acadêmico e aos descalabros feitos em nome da "ciência" e da "verdade", no entanto, os envolvidos se defendem afirmando que "interferir" na vida dos nativos é consequência natural do trabalho do pesquisador, e que a maior parte das críticas é infundada e maldosa. No caso do problema 1, Chagnon se comparou a Galileu, se dizendo injustiçado perante sua comunidade; no caso do problema 2, Good atacou Chagnon e se defendeu com base em um relativismo moral barato; no caso do problema 3, Lizot se recusou a dar entrevistas;  no caso do problema 4, Neel já faleceu, mas tanto Chagnon quanto uma literatura específica se dedicaram a defender o legado do geneticista.

O ponto central deste texto, para quem teve paciência de chegar até aqui, é o papel racista e dominador que o "homem branco ocidental" insiste em desempenhar quando se relaciona com pessoas de outras etnias, particularmente as indígenas.  O agravante nesse caso é que nem mesmo os antropólogos, que tem como arroz e feijão de sua formação a discussão sobre o racismo e o etnocentrismo, escapam dessa sina. Práticas culturais muito enraizadas e naturalizadas são muito fortes e resistentes, e o caso dos Ianomami é só mais um exemplo do quanto a relação de ampla dominação do homem branco com o Outro tem vencido sistematicamente a alteridade.

Se a dominação é presente até mesmo no seio da ciência humana da alteridade, é de se esperar que os demais empreendimentos científicos reproduzissem padrões semelhantes. O maior problema envolvido nessa equação é a separação ocidental entre o individuo, na forma de um eu racional e imaterial, e o mundo, na forma da realidade objetiva ou concreta. O psicólogo B. F. Skinner chamou isso de mentalismo; o antropólogo Tim Ingold chamou isso de representacionismo ocidental; mas há muitas fontes de críticas a esse tipo de pensamento dicotômico e tipicamente ocidental, por vezes acompanhados de propostas ontológicas e epistemológicas de soluções, por vezes com propostas "desconstrucionistas" que não oferecem nada para por no lugar.

Ainda que Skinner e Ingold tenham identificado o problema e oferecido uma ontologia e uma epistemologia para por no lugar, os empreendimentos científicos que a eles antecedem e, em certo sentido até mesmo sucedem, não conseguiram ainda se livrar das dicotomias. Há quem diga que estamos na era de uma ciência sobre "coisa" alguma - e estou de pleno acordo com a proposta -, mas não conseguimos ainda nos livrar de uma forma de compreender a realidade e de produzir conhecimento presas ao mentalismo ou ao representacionismo. Há importantes analistas do comportamento que ainda abraçam a ideia de um mundo real e concreto possível, em detrimento do comportamento do pesquisador, são os defensores dos "dados" e críticos da "ideologia" que atrapalha a visão imparcial dos fatos. Há um mundo de antropólogos e, de fato, como o próprio documentário realçou, uma briga enorme entre escolas antropológicas que debate qual seria uma ontologia apropriada para uma ciência da humanidade e da cultura.

Para ficar em alguns exemplos, ignorando ensinamentos básicos do comportamentalismo radical que questionam a existência de um mundo independente do observador, afirmando que a realidade que interessa é a realidade comportamental, há pesquisadores e pesquisadoras que afirmam que "a ciência não tem sexo", logo, não há a necessidade de discutir questões de gênero dentro da comunidade; de forma semelhante, alguns questionam a supostamente ultrapassada dicotomia "esquerda" e "direita", ideologias que atrapalham a visão lúcida dos dados ou fatos da realidade por parte do cientista. Na antropologia, ainda há escolas que afirmam que toda a multiplicidade das formas de vida e culturas humanas é resultado de uma necessidade única e geneticamente determinada, o sucesso reprodutivo. Longe de questionar a miopia em medir todos os fenômenos com a mesma régua (afinal, a realidade é uma só, não é mesmo?), parece evidente que a biologia é o começo, o meio e o fim, e contextos sociais e toda sua riqueza são apenas veículos para a criatividade e necessidade dos genes.

Finalizo este já longo texto com duas passagens que considero avanços na direção de uma ciência das relações diametralmente oposta à essas praticadas pelos personagens envolvidos nos eventos cobertos pelo documentário Segredos da Tribo, e por psicólogos envolvidos nos exemplos que descrevi:


Verdade. A verdade de uma afirmação de fato está limitada pelas fontes do comportamento do falante, pelo controle exercido pelo cenário atual, pelos efeitos de cenários semelhantes no passado, pelos efeitos sobre o ouvinte conducentes a precisão, exagero ou falsificação, e assim por diante. Não há maneira de uma descrição verbal de um cenário poder ser absolutamente verdadeira. Uma lei científica é possivelmente derivada de muitos episódios desse tipo, mas é igualmente limitada pelo repertório dos cientistas envolvidos. A comunidade verbal do cientista mantém sanções especiais, no esforço de garantir validez e objetividade, mas, uma vez mais, não pode haver um absoluto. Nenhuma dedução de uma regra ou lei pode, por isso, ser absolutamente verdadeira. Se houver uma verdade absoluta, ela só pode ser encontrada em regras derivadas de regras, e isto é mera tautologia" (Skinner, 1974).



"Cada ser emerge, com sua forma particular, disposições e capacidades, como um locus de crescimento (...) dentro desse campo. A mente, portanto, não é adicionada à vida, mas é imanente no engajamento intencional, na percepção e ação de seres vivos com os aspectos constituintes de seus ambientes. Logo, o mundo não é um domínio externo de objetos que eu olho ou manipulo, mas sim uma contínua geração entre eu e o mundo ao meu redor. Como tal engajamento primário é uma condição do ser, também deve ser uma condição do conhecimento, seja o conhecimento em questão considerado 'científico' ou não. Todo o conhecimento científico apropriado repousa sobre a observação, mas não pode haver observação sem participação - sem o observador ou a observadora unindo o movimento de sua atenção às correntes circundantes de atividade. Portanto,  abordagem que tenho seguido aqui não é uma alternativa à ciência (...); ela busca restaurar as práticas da ciência aos contextos da vida humana no mundo. Pois é a partir desses contextos que todo o conhecimento cresce" (Ingold, 2001).

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