quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Você é um anarquista? A resposta pode te surpreender!

Texto traduzido do original "Are you an anarchist? The answer may surprise you!", de 2000.


Por David Graeber

É possível que você já tenha ouvido algo sobre quem os anarquistas são e no que eles deveriam acreditar. É possível que praticamente tudo o que você ouviu seja bobagem. Muitas pessoas parecem pensar que anarquistas são proponentes da violência, do caos e da destruição, que eles são contra todas as formas de ordem e organização, ou que eles são niilistas malucos que só querem por tudo abaixo. Na realidade, nada poderia ser mais distante da verdade. Anarquistas são apenas pessoas que acreditam que seres humanos são capazes de se comportar de forma razoável sem terem que ser forçadas a isso. É realmente uma ideia muito simples. Mas é uma que os ricos e poderosos sempre acharam extremamente perigosa.

Em sua forma mais simples, as convicções anarquistas assumem duas premissas elementares. A primeira é que, sob circunstâncias comuns, seres humanos são tão razoáveis e decentes quanto os é permitido ser, e podem organizar a si mesmos e às suas comunidades sem precisar que os digam como. A segunda é que o poder corrompe. Acima de tudo, anarquismo é apenas uma questão de ter a coragem de assumir os princípios simples de decência comum pelos quais todos vivemos e segui-los às suas conclusões lógicas. Por mais estranho que possa parecer, nos sentidos mais importantes você provavelmente já é um anarquista – você apenas não percebeu ainda.
Vamos começar por alguns exemplos da vida cotidiana.
  • Se há uma fila para entrar em um ônibus cheio, você espera sua vez e evita abrir caminho empurrando os demais mesmo na ausência de fiscalização?
Se você respondeu que “sim”, então você está acostumado a agir como um anarquista! O princípio anarquista mais básico é a auto-organização: a premissa de que seres humanos não precisam ser tratados coercitivamente a fim de que sejam capazes de chegar a acordos razoáveis uns com os outros, ou de tratar-se com dignidade e respeito.

Todo mundo acredita que é capaz de se comportar de forma razoável por conta própria. Se eles acreditam que leis e polícia são necessários, isso se dá apenas porque eles não acreditam que outras pessoas são capazes do mesmo. Mas se você pensar a respeito, essas pessoas não se sentem exatamente da mesma maneira sobre você? Anarquistas argumentam que praticamente todo comportamento antissocial que nos faz pensar serem necessários exércitos, polícia, prisões e governos para controlar nossas vidas é causado, na verdade, pelas desigualdades e injustiças sistemáticas tornadas possíveis por esses exércitos, polícias, prisões e governos. É todo um círculo vicioso. Se pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se suas opiniões não importassem, elas estão propensas a se tornarem nervosas e cínicas, até mesmo violentas – o que, evidentemente, facilita para que os que estão no poder digam que suas opiniões não importam. Uma vez que entendam que suas opiniões realmente importam tanto quanto as de qualquer outra, elas tendem a se tornarem notavelmente compreensivas. Para encurtar a história: anarquistas acreditam que o próprio poder e seus efeitos são os maiores responsáveis por tornarem as pessoas estúpidas e irresponsáveis.
  • Você é membro de um clube ou equipe esportiva ou qualquer outra organização voluntária na qual as decisões não são impostas por um líder, mas são tomadas com base em consenso geral?
Se você respondeu que sim, então você pertence a uma organização que funciona sob princípios anarquistas! Outro princípio anarquista básico é a associação voluntária. Essa é apenas uma questão de aplicar princípios democráticos à vida comum. A única diferença é que anarquistas acreditam que deveria ser possível ter uma sociedade na qual tudo poderia ser organizado nesses parâmetros, todos os grupos baseados no livre consenso de seus membros e que, portanto, todas as organizações do estilo militar e hierárquicas, como exércitos ou burocracias e grandes corporações, baseadas em cadeias de comando, não seriam mais necessárias. Talvez você não acredite que isso seria possível. Talvez você acredite. Mas cada vez que você chega a um acordo por consenso ao invés de ameaças, cada vez que você faz um arranjo voluntário com outra pessoa, chega a um entendimento, ou assume um compromisso levando em devida consideração a situação ou necessidades particulares da outra pessoa, você está sendo um anarquista – mesmo se você não se dá conta disso.
Anarquismo é apenas o modo como as pessoas agem quando elas são livres para fazer o que quiserem e quando lidam com outros que são igualmente livres – e, portanto, conscientes de suas responsabilidades com os demais envolvidos. Isso nos leva a outro ponto crucial: que enquanto as pessoas podem ser razoáveis e ponderadas quando estão lidando com iguais, a natureza humana é tal que não se pode confiar nelas quando possuem poder sobre outras pessoas. Dê a alguém tal poder e ele irá quase que invariavelmente abusar disso de uma forma ou de outra.
  • Você acredita que a maior parte dos políticos são porcos egoístas e interesseiros que não estão nem aí para o interesse público? Você acha que vivemos em um sistema econômico que é estúpido e injusto?
Se você respondeu que “sim”, então você assina embaixo da crítica anarquista da sociedade contemporânea – ao menos em seus contornos mais gerais. Anarquistas acreditam que o poder corrompe e que aqueles que passam suas vidas inteiras buscando o poder são as últimas pessoas que deveriam tê-lo. Anarquistas acreditam que nosso sistema econômico atual é mais propenso a recompensar pessoas por seu comportamento egoísta e inescrupuloso do que por serem seres humanos decentes e interessados. A maior parte das pessoas se sente dessa forma. A única diferença é que a maior parte das pessoas não pensa que algo possa ser feito a respeito ou, de qualquer forma – e isso é o que os fiéis servos dos poderosos estão sempre mais propensos a insistir –, algo que não acabe deixando as coisas ainda piores.

Mas e se isso não fosse verdade? E há realmente alguma razão para acreditar nisso? Quando você pode testá-las realmente, a maior parte das previsões usuais sobre o que aconteceria sem estados ou capitalismo se mostra completamente falsa. Por centenas de anos pessoas viveram sem governos. Em muitas partes do mundo, pessoas hoje vivem fora do controle dos governos. Elas não se matam todas umas às outras. Em sua maioria elas apenas seguem com suas vidas da mesma forma que qualquer outra pessoa. É claro que em uma sociedade complexa, urbana, tecnológica, tudo isso seria mais complicado: mas a tecnologia também pode fazer com que seja muito mais fácil resolver todos esses problemas. Na verdade, nós nem começamos a pensar sobre com o que nossas vidas se pareceriam se a tecnologia fosse realmente direcionada para se adequar às necessidades humanas. Quantas horas realmente teríamos que trabalhar para manter uma sociedade funcional – isso é, se nos livrássemos de todas as ocupações inúteis ou destrutivas, como operadores de telemarketing, advogados, guardas de prisão, analistas financeiros, especialistas em relações públicas, burocratas e políticos, e deixássemos nossas melhores mentes científicas livres do trabalho em armamento espacial ou sistemas de mercados de ações e voltadas para a mecanização e afastamento de tarefas perigosas ou irritantes como mineração de carvão ou limpeza do banheiro, e distribuíssemos o trabalho restante igualmente entre todos? Cinco horas por dia? Quatro? Três? Duas? Ninguém sabe, porque ninguém está nem mesmo fazendo esse tipo de pergunta. Anarquistas pensam que são essas as perguntas que deveríamos estar fazendo.
  • Você realmente acredita nas aquelas coisas que conta para suas crianças (ou que seus pais contaram para você)?
“Não interessa quem começou.” “Dois erros não fazem um acerto.” “Limpe sua própria bagunça.” “Não seja rude com as pessoas apenas porque elas são diferentes.” Talvez devêssemos decidir se estamos mentindo para nossas crianças quando contamos a elas sobre certo ou errado, ou se estamos dispostos a levar a sério nossas injunções. Porque se você levar esses princípios morais às suas conclusões lógicas, você chega ao anarquismo.

Pegue o princípio de que dois erros não fazem um acerto. Se você realmente leva-lo a sério, sozinho ele derrubaria praticamente todas as bases que sustentam a guerra e o sistema criminal de justiça. O mesmo para compartilhamento: estamos sempre dizendo às crianças que elas precisam aprender a compartilhar, a serem compreensivas com as necessidades dos outros, a ajudar os outros; e então saímos para o mundo real, onde presumimos que todo mundo é naturalmente egoísta e competitivo. Mas um anarquista iria pontuar: na verdade, o que dizemos às nossas crianças está certo. Praticamente cada grande realização importante na história humana, cada descoberta ou conquista que melhorou nossas vidas, tem sido baseada em cooperação e ajuda mútua; mesmo hoje, muitos de nós gastamos mais do nosso dinheiro com nossos amigos e familiares do que com nós mesmos; ainda que provavelmente sempre existirão pessoas competitivas no mundo, não há motivo pelo qual a sociedade tenha que ser baseada no encorajamento desse tipo de comportamento, quanto mais deixar as pessoas competirem pelas necessidades básicas da vida. Isso serve apenas aos interesses das pessoas no poder, que quer que vivemos com medo uns dos outros. É por isso que anarquistas clamam por uma sociedade baseada não apenas na associação livre, mas na ajuda mútua. O fato é que muitas crianças crescem acreditando na moralidade anarquista, e então gradualmente tem que perceber que o mundo adulto na verdade não funciona dessa forma. Essa é a razão pela qual muitos se tornam rebeldes, ou alienados, e mesmo suicidas quando adolescentes e, por fim, resignados e amargos quando adultos; com frequência, seu único consolo é a possibilidade de criar seus próprios filhos e fingir para eles que o mundo é justo. Mas e se pudéssemos realmente começar a construir um mundo que fosse de fato fundado pelo menos em princípios de justiça? Não seria esse o maior presente que alguém poderia dar a seus filhos?
  • Você acredita que seres humanos são fundamentalmente corruptos e maldosos, ou que certos tipos de pessoas (mulheres, pessoas de cor, a gente comum que não é rica ou altamente educada) são espécimes inferiores, destinadas a serem governadas por seus superiores?
Se você respondeu que “sim”, então, bem, parece que você não é um anarquista afinal. Mas se você respondeu que “não”, então é possível que você já tenha assinado embaixo de 90% dos princípios anarquistas e, muito provavelmente, está vivendo sua vida amplamente em acordo com eles. Toda vez que você trata outra pessoa com consideração e respeito, você está sendo um anarquista. Toda vez que você resolve suas diferenças com os outros chegando a um acordo razoável, ouvindo o que cada um tem a dizer ao invés de deixar uma pessoa decidir para todos os demais, você está sendo um anarquista. Toda vez que você tem uma oportunidade de forçar alguém a fazer algo, mas decide, ao invés disso, apelar para seu senso de razão e justiça, você está sendo um anarquista. O mesmo se aplica a toda vez que você compartilha algo com um amigo, ou decide quem irá lavar os pratos, ou faz qualquer coisa com vistas à equidade.

Agora, você pode alegar que tudo isso é muito bom e bacana como caminho para pequenos grupos de pessoas se relacionarem umas com as outras, mas gerenciar uma cidade, ou um país, é uma questão inteiramente diferente. E claro que há algo aí. Mesmo se você descentralizar a sociedade e colocar o máximo de poder possível nas mãos das comunidades pequenas, ainda haverá muitas coisas que precisarão ser coordenadas, da operação de estradas de ferro à decisão sobre as direções da pesquisa médica. Mas só porque algo é complicado não quer dizer que não há uma forma de fazê-lo democraticamente. Seria apenas complicado. De fato, anarquistas tem todo tido de ideias diferentes e visões sobre como uma sociedade complexa poderia se gerir. No entanto, explica-las seria ir bem além do escopo de um pequeno texto introdutório como esse. Basta dizer, em primeiro lugar, que muitas pessoas tem despendido muito tempo pensando em modelos de como uma sociedade realmente democrática e saudável poderia funcionar; mas, em segundo lugar, e tão importante quanto, nenhum anarquista alega ter um plano perfeito. A última coisa que queremos é impor de qualquer maneira modelos pré-fabricados sobre a sociedade. A verdade é que provavelmente não podemos imaginar nem a metade dos problemas que irão aparecer quando tentarmos criar uma sociedade democrática; ainda, confiamos que, sendo a criatividade humana como é, tais problemas sempre podem ser resolvidos, desde que ela esteja no espírito de nossos princípios básicos – que são, no fim das contas, simplesmente os princípios da decência humana fundamental.

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